Créditos: Anna Shvets - Pexels
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O primeiro emprego de Arthur Ramos, morador do Rio de Janeiro, foi como professor, há 10 anos. Desde então, ele vem ensinando em cursos de idiomas, escolas de bairro, pré-vestibulares e projetos sociais. Durante a sua trajetória como educador, notou que nunca teve alunos trans como ele, e mais: era sempre o primeiro professor trans dos seus alunos.

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“Alguns nunca tinham conhecido uma pessoa trans até ter aula comigo e isso me encucava muito, me deixava muito incomodado”, afirma Arthur.

Arthur é professor de francês e criador da escola popular para pessoas trans.

Como forma de mudar esse cenário e combater a exclusão de pessoas trans da educação, Arthur criou a escola popular Ches-Nouz. 

A comunidade trans sofre com a evasão escolar, a qual muitos pesquisadores renomeiam como “expulsão escolar”, pois acontece devido à transfobia. Essas pessoas também passam pelo abandono familiar, o que dificulta a entrada no mercado de trabalho. Saber um novo idioma é um grande diferencial para acessar vagas de emprego, para quem sabe o francês, a diferença salarial chega a 30%. 

Durante a pandemia, Arthur se viu isolado em casa, seguindo à risca as recomendações da quarentena. Ele anunciou na rede social X (antigo Twitter), uma turma online só pra pessoas trans, cada um pagando o quanto podia, chegando a ter alunos que pagavam dez reais de mensalidade. Foi um sucesso tão grande que a turma se tornou duas e o projeto se repetiu no ano seguinte.

”Continuei fazendo, na cara e na coragem, sem nada, porque curava minhas dores com a educação”, desabafa. Atualmente, as mensalidades são valores fixos por turma, mas ainda são a preços populares e com bolsas afirmativas.

Ele conta que em sua jornada em sala de aula algo sempre o assombrou: o medo de acabar ensinando só pessoas cisgêneras (o contrário de trans) e desistir de ser professor por causa disso.

“Não me fodi até aqui pra entrar numa sala de aula e ser o único trans de novo”. Ele se sentia muito sozinho em sua experiência enquanto pessoa trans.

Teve uma época em que Arthur se afastou da educação, fez gastronomia, foi padeiro e trabalhou em restaurante, mas durante esse tempo descobriu que não tem nada no mundo que o faça mais feliz do que ensinar. Então decidiu que retomaria o Ches-Nouz, mas que não daria pra fazer sozinho. Ele formou uma equipe e começou a sonhar grande de verdade. Agora o curso conta com certificado de finalização, identidade visual, material novo e exclusivo, como merece. 

Eli de Oliveira, estudante de psicologia e multiartista, morador da cidade de Niterói, no estado do Rio de Janeiro, foi aluno do curso. Ele conta que começou as aulas de francês porque queria ampliar a sua noção de linguagem e a escola o pareceu um ambiente confortável, mais acolhedor e também mais atencioso onde ele poderia se desenvolver.

Eli de Oliveira teve a oportunidade de aprender francês através do Ches-Nouz.

“Tenho muita dificuldade com novas línguas e lá eu senti mais confiança em aprender. Usam metodologias fora das convencionais que funcionam muito bem e de maneira bem comprometida com o avanço dos alunos“, conta.

Em francês, o termo “chez-nous” significa nossa casa, e Arthur e a sua equipe buscam proporcionar isso para a comunidade, sendo a escola uma casa feita à mão, com muita luta, muito carinho, responsabilidade e acolhimento. Eles hoje sonham em um dia o Ches-Nouz transcender o on-line e se tornar casa de acolhimento e educação. 

O objetivo é ter um espaço com vestiário, sofá-cama, cuidadoteca pras crianças, cozinha e itens emergenciais. A ideia é poder oferecer outros cursos além do francês, como cursos profissionalizantes e outros idiomas.

“A escola é pensada pra ser a segunda casa da pessoa e, quando se é trans, às vezes a gente não tem nem a primeira“, destaca Arthur.