Foto: Leandro Sá
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O território de Cariacica, no Espírito Santo, carrega as marcas de três grandes violações institucionais, além da escravidão e do extermínio dos povos originários: o leprosário (1937), o hospício ou manicômio (1954) e as cadeias (1967). Esse passado, ao longo do tempo, foi transformado em motivo de piadas, estigmas e silenciamentos. O alívio proporcionado pelo desmonte de estruturas de confinamento e pela chegada de novos tratamentos também foi acompanhado pelo apagamento seletivo dessas histórias e do patrimônio material que ajuda a preservá-las.

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É nesse contexto que a exposição “Hospital Pedro Fontes: Ecos da Memória”, realizada no Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), Campus Cariacica, coloca em debate o desaparecimento dessas memórias. A mostra aborda a história da hanseníase, os impactos das políticas de isolamento compulsório e as trajetórias de pacientes e familiares que viveram essa experiência. O acervo reúne fotografias de Guilherme Carvalho, retratos históricos e objetos pessoais que revelam histórias de resistência, afetividade e luta contra o esquecimento.

Preservar esses lugares e suas memórias é estratégico para a educação em direitos humanos no Espírito Santo. Não se trata de construir uma imagem positiva da cidade apenas por meio de um discurso de novidade, mas de reafirmar o protagonismo das pessoas atingidas por violações de direitos e ensinar, a partir das marcas deixadas pelo trauma, o valor da vida humana e da empatia.

Cariacica pode se tornar referência em educação patrimonial e em direitos humanos, reafirmando sua identidade como Cidade da Vida.

A programação de abertura, realizada em 28 de outubro, contou com uma roda de conversa na Biblioteca do Ifes Campus Cariacica. Participaram do encontro Lívia Gabry Poubel do Carmo, Clélia Maria Alves da Silva e Heraldo Pereira, com mediação da professora Zezé Corrêa. O debate abordou patrimônio, reparação histórica e direitos humanos.

A visitação da exposição segue até 15 de dezembro de 2026.

Ouvir essas histórias também é parte desse compromisso. Que os ecos dessa memória não sirvam para mumificar ou congelar o passado, mas para impedir que ele se repita.

Como aponta Michel Foucault, em A arqueologia do saber:

“[…] a história é o que transforma os documentos em monumentos e que desdobra, onde se decifravam rastros deixados pelos homens, onde se tentava reconhecer em profundidade o que tinha sido, uma massa de elementos que devem ser isolados, agrupados, tornados pertinentes, inter-relacionados, organizados em conjunto.”

(FOUCAULT, M. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1987, p. 8).

Nessa perspectiva foucaultiana, o conhecimento histórico é estratégico na luta contra a barbárie que reduz o outro ao silêncio e à morte. A verdadeira política só pode ser reconstruída quando recusamos o estado de exceção e a necropolítica que transformam corpos em alvos. É preciso resgatar o compromisso incondicional com a dignidade humana e reconhecer o poder da ação coletiva para interromper o automatismo da violência e construir, no espaço compartilhado da palavra, a possibilidade de um novo começo.

A exposição “Hospital Pedro Fontes: Ecos da Memória” conta com o apoio do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Neabi) do Ifes – Campus Cariacica; da Biblioteca do Ifes – Campus Cariacica; do Grupo Raízes; do LabDES; dos trabalhadores e trabalhadoras terceirizados(as) do Ifes – Campus Cariacica; do Memorial do Leprosário de Itanhenga (coordenação: Patrícia Merlo e Sebastião Pimentel); do Laboratório Saberes e Sabores: História da Alimentação e das Práticas de Cura (UFES); e do Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan).

A equipe de curadoria é formada por Maria José Corrêa de Souza, Maristela Almeida Mercandeli, Luciana Dumer, Regina Célia Neves Geraldo, Valeria Yone dos Santos de Boni, Lívia Gabry Poebel do Carmo, Guilherme Carvalho e Igor Vitorino da Silva.