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Enquanto a vitória de Lula no Brasil representa uma derrota eleitoral para a direita bolsonarista, na Colômbia, artistas e movimentos progressistas enfrentam uma ofensiva contra espaços culturais. O contraste expõe como a política influencia a liberdade de expressão, a memória coletiva e o futuro das pautas sociais na América Latina.

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A disputa política na América Latina não termina nas urnas. Ela continua nas redes sociais, nas ruas, nas escolas e, cada vez mais, nos espaços culturais. Brasil e Colômbia vivem momentos distintos dessa disputa, mas os acontecimentos nos dois países levantam uma questão em comum: o que acontece com as vozes que defendem direitos sociais quando projetos políticos opostos disputam o poder?

No Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições presidenciais, realizado em 25 de outubro, com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% do adversário. A vitória representou uma derrota eleitoral para o bolsonarismo, mesmo diante de uma disputa marcada pela polarização. Durante a campanha, artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Maria Bethânia manifestaram apoio a Lula, enquanto setores da sociedade civil se mobilizaram em defesa da democracia.

Na Colômbia, o cenário apresenta outro movimento. O presidente Abelardo de la Espriella, eleito pela direita e empossado em agosto de 2026, colocou a cultura no centro de sua agenda política, anunciando uma ofensiva contra o que chama de wokismo, expressão utilizada por setores conservadores para criticar pautas progressistas relacionadas a gênero, diversidade e desigualdade social.

Em outubro, a retirada de 30 peças da exposição permanente do Museu Nacional da Colômbia provocou uma onda de críticas. Entre os itens removidos estavam objetos relacionados aos movimentos feministas, à população LGBTQIA+, à mobilização estudantil que contribuiu para a Constituição de 1991 e à memória de lideranças políticas assassinadas. Artistas, pesquisadores e organizações culturais denunciaram o risco de apagamento histórico e censura.

Quando a disputa política alcança a arte

A situação colombiana evidencia que a disputa pelo poder também pode envolver a definição de quais histórias serão contadas e quais grupos terão suas experiências representadas publicamente.

Quando obras, documentos e símbolos ligados a movimentos sociais são retirados de espaços públicos, o debate ultrapassa a preferência estética ou ideológica de um governo. A questão passa a envolver a preservação da memória coletiva e o direito de diferentes grupos sociais participarem da construção da identidade nacional.

A reação na Colômbia demonstra que o recuo institucional não significa necessariamente silêncio social. Após as mudanças no Museu Nacional, cidadãos e representantes do setor cultural organizaram manifestações. Museus de diferentes regiões também defenderam a autonomia das instituições artísticas.

É nesse contexto que ganha importância o relato de uma fonte colombiana ouvida pela reportagem, cuja experiência poderá contribuir para compreender como essas mudanças são percebidas por quem acompanha a realidade política e cultural do país.

Segundo um colombiano ouvido pela reportagem, identificado pelo pseudônimo Camilo para preservar sua identidade, a situação política do país tem gerado preocupações tanto pelas decisões do governo quanto pelo ambiente de debate nas redes sociais.

“A presença de bots e a atuação da oposição são muito fortes nas redes sociais. Começaram a censurar conteúdos relacionados ao presidente, enquanto diferentes atores políticos de esquerda são intimidados, insultados e censurados. Isso levanta preocupações sobre a liberdade de expressão e o espaço disponível para o debate político nas plataformas digitais”.

Na verdade, o orçamento nacional aprovado pelo atual governo cortou recursos de diversas áreas sociais, como saúde, educação, cultura e subsídios. Desde a posse, muitas coisas têm dado errado. Não estou exagerando quando digo que o presidente gera material polêmico praticamente todos os dias. As decisões do governo e as reações que provocam têm mantido o país em um clima constante de tensão política.

O cenário também me faz lembrar episódios envolvendo Lula e a Meta, que levantaram discussões sobre o poder das plataformas digitais e seus impactos sobre a comunicação política. Quando conteúdos e vozes políticas perdem espaço nas redes, precisamos discutir até que ponto isso afeta o direito à informação, a liberdade de expressão e a participação democrática.

Brasil: vitória eleitoral, mas sem o fim da polarização

O resultado brasileiro apresenta um contraste importante. A reeleição de Lula mostra que o campo progressista conseguiu reunir votos suficientes para vencer uma disputa presidencial apertada, mesmo diante da força eleitoral do bolsonarismo.

A participação de artistas no debate eleitoral também demonstrou como a cultura pode funcionar como instrumento de mobilização. Músicos, atores e outras personalidades utilizaram sua visibilidade para declarar apoio político e convocar a população a participar da disputa.

Entretanto, a vitória nas urnas não significa que a sociedade tenha superado suas divisões. Flávio Bolsonaro recebeu 48,21% dos votos válidos, evidenciando a dimensão do apoio ao campo adversário. Além disso, o novo Congresso terá uma composição conservadora, o que poderá dificultar a aprovação de medidas do governo Lula.

Portanto, o resultado eleitoral representa uma conquista para o campo que apoiou Lula, mas não garante, por si só, o avanço de todas as pautas defendidas por artistas, movimentos sociais e organizações progressistas.

A disputa continua no campo legislativo, nas políticas públicas e na capacidade de transformar promessas eleitorais em mudanças concretas na vida da população.

O impacto social: quem pode contar a história de um país?

A comparação entre os dois países permite observar uma questão central: a cultura não é apenas entretenimento. Música, cinema, literatura, teatro, artes visuais e manifestações populares também ajudam a formar valores, questionar desigualdades e tornar visíveis experiências que nem sempre encontram espaço no debate institucional.

Quando artistas se posicionam politicamente, podem ampliar a circulação de determinadas ideias e aproximar temas complexos de públicos que não acompanham a política pelos canais tradicionais. Ao mesmo tempo, a exposição pública pode gerar ataques, campanhas de deslegitimação e pressões sobre quem expressa opiniões contrárias aos grupos que estão no poder.

Na Colômbia, a retirada de peças do Museu Nacional tornou concreta a disputa sobre a representação de movimentos sociais e períodos da história nacional. No Brasil, a vitória eleitoral de Lula demonstrou a capacidade de mobilização de seu campo político, mas a divisão expressa nas urnas revela que a disputa por valores e projetos de sociedade continua aberta.

O risco social aparece quando diferenças políticas deixam de ser tratadas como parte da democracia e passam a justificar a exclusão de determinadas vozes dos espaços públicos.

Isso não significa que governos não possam rever políticas culturais ou que artistas estejam acima de críticas. Significa que decisões sobre patrimônio, financiamento e acesso à cultura precisam de critérios transparentes, respeito à liberdade de expressão e espaço para a pluralidade.

A cultura também é um campo de resistência

A experiência colombiana mostra que medidas de restrição ou exclusão cultural podem provocar reações e estimular novas formas de organização social. No Brasil, a mobilização de artistas durante a campanha eleitoral reforçou a presença da cultura na disputa pública.

Os caminhos são diferentes, mas ambos os casos demonstram que artistas não são apenas espectadores das transformações políticas. Eles podem participar da construção de narrativas, questionar decisões governamentais e influenciar a maneira como a sociedade interpreta seus próprios conflitos.

A pergunta que fica não é apenas qual campo político venceu uma eleição ou perdeu espaço nas instituições. É se, independentemente de quem governa, haverá espaço para a diversidade de ideias, para a crítica e para a expressão de grupos historicamente marginalizados.

Afinal, quando a política tenta definir os limites da cultura, o que está em jogo não é somente o futuro dos artistas. É também o direito da sociedade de conhecer diferentes versões de sua história e decidir, com liberdade, que futuro deseja construir.