O presidente Luiz Inácio Lula da Silva iniciou, nesta terça-feira (22), seu discurso no Debate Geral da 81ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, afirmando que este é o momento mais crítico da organização desde 2003, quando fez seu primeiro pronunciamento como presidente na Assembleia. Ao tratar dos conflitos armados, Lula afirmou que a ONU está falhando na missão de proteger as populações atingidas pelas guerras e criticou o que chamou de “imobilismo” do Conselho de Segurança.
“A ONU está falhando em uma de suas missões mais elevadas. A de livrar a humanidade do flagelo da guerra. Sua credibilidade nunca esteve tão baixa. Sua capacidade de proteger os mais vulneráveis, os que não têm exército nem arsenais nunca foi tão pequena”, declarou.
Segundo Lula, 2025 registrou o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial. Ele também criticou o aumento dos gastos militares e afirmou que trilhões de dólares estão sendo destinados a uma nova corrida armamentista.
“As concessões à lei do mais forte já passaram dos limites”, disse o presidente. Para Lula, a guerra representa a “falência total da política”. Ele defendeu que os países que integram o Conselho de Segurança assumam responsabilidade diante da escalada dos conflitos e voltou a cobrar uma reforma do órgão.
Gaza e a Palestina
Ainda no início do pronunciamento, Lula abordou a situação da população palestina na Faixa de Gaza. O presidente classificou como “genocídio” as ações do governo de Benjamin Netanyahu e chamou de “terroristas” os atos do Hamas.
“Gerações de palestinos carregarão a dor e o trauma deixado pelo genocídio praticado pelo governo Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza. Civis israelenses pagaram o preço do radicalismo e da intolerância dos atos terroristas do Hamas”, afirmou.
Lula defendeu o direito do povo palestino à autodeterminação e a criação de um Estado palestino, além do respeito ao direito internacional.
Tráfico de africanos escravizados
Ao longo do discurso, Lula também destacou uma resolução aprovada pela Assembleia Geral da ONU em março deste ano, que reconheceu o tráfico transatlântico de africanos escravizados como “o crime mais grave contra a humanidade”.
O presidente afirmou que a decisão representa uma correção de “distorções históricas” e recebeu aplausos ao mencionar a resolução.
“Essa Assembleia corrigiu recentemente distorções históricas. Reconheceu o tráfico de africanos escravizados como o mais grave crime contra a humanidade”, afirmou.
Na sequência, Lula apresentou os principais desafios que, segundo ele, estão colocados para a comunidade internacional. “Somos chamados a optar entre o multilateralismo e unilateralismo. Democracia e extremismo. Soberania ou subordinação”, disse.
“O Brasil não cabe no quintal de ninguém”
A defesa da soberania brasileira ganhou destaque quando Lula falou sobre a relação do país com os Estados Unidos e sobre as tensões na América Latina e no Caribe.
“Na América Latina e Caribe, a proximidade com a maior potência militar do mundo é inescapável, sobretudo no contexto de recrudescimento de tentações hegemônicas”, afirmou.
Em seguida, declarou: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”. Para Lula, diferenças ideológicas não devem impedir a integração entre os países da região.
“Precisamos de parceiros com uma agenda positiva que fomentem o desenvolvimento. Diferenças ideológicas não devem ser obstáculos para a maior integração entre vizinhos”, afirmou.
Eleições e interferência externa
O presidente também dedicou parte do pronunciamento às eleições brasileiras. Lula afirmou que o pleito não definirá apenas os próximos ocupantes da Presidência, dos governos estaduais e do Legislativo, mas também, em sua avaliação, o caminho político que o país seguirá.
Segundo ele, a eleição será uma escolha entre “democracia e negacionismo” e entre avançar para um futuro com mais oportunidades ou retornar a um passado de exclusão.
Lula afirmou que o sistema eleitoral brasileiro é “transparente e competitivo” e que os candidatos possuem liberdade de expressão. Ao mesmo tempo, alertou para o que chamou de interesses estrangeiros contrários ao país e para redes de desinformação.
“Não permitiremos que inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular. A democracia brasileira pertence aos brasileiros. O Brasil continuará sendo um país soberano. Ninguém nos afastará deste caminho”, declarou.
Crime organizado
O combate ao crime organizado também apareceu no discurso. Lula afirmou que o Brasil não pretende terceirizar a responsabilidade de proteger suas fronteiras e garantir segurança à população.
“Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastece o crime organizado”, afirmou.
O presidente disse que o Brasil está preparado para enfrentar as organizações criminosas e mencionou operações realizadas em 2025, além da aprovação da chamada lei antifacção.
“Crime organizado e corrupção andam juntos. O combate à corrupção continuará implacável, doa a quem doer. Ninguém está acima da lei”, declarou.
Desigualdade, clima e tecnologia
O discurso também tratou de questões sociais e econômicas. Lula defendeu o combate à fome e à pobreza, políticas de distribuição de renda, acesso à educação e à saúde e maior participação dos países em desenvolvimento nas decisões internacionais.
A desigualdade foi relacionada pelo presidente às estruturas históricas de poder que ainda influenciam as relações entre países. Lula defendeu maior participação de nações da África, Ásia, América Latina e Caribe nos organismos multilaterais.
A crise climática também esteve entre os temas abordados. O presidente apresentou o Brasil como um país com potencial para participar da transição energética e defendeu uma exploração responsável dos recursos naturais.
Na área tecnológica, Lula defendeu regras para o desenvolvimento da inteligência artificial e criticou a concentração das novas tecnologias nas mãos de poucas empresas e países. Também destacou a proteção de dados e de grupos vulneráveis no ambiente digital.
Direitos sociais e trabalho
Lula ainda levou para a tribuna da ONU debates presentes na agenda brasileira, como os direitos das mulheres, a proteção dos trabalhadores e a discussão sobre a escala 6×1.
O presidente também mencionou o Pix e as apostas online ao tratar de soberania econômica e dos impactos das novas tecnologias e modelos de negócio sobre a sociedade.
Ao final do pronunciamento, Lula retomou a defesa do multilateralismo, da democracia e da soberania dos países. O presidente encerrou sua fala desejando que “Deus nos abençoe a todos” e agradecendo aos presentes.














