O Estado exerce o direito de matar. A política se transforma em o poder de ditar quem pode viver e quem deve morrer.”
— Achille Mbembe, Necropolítica
O Brasil acorda, mais uma vez, coberto de sangue. Sangue negro, favelado, periférico. Sangue que o Estado insiste em tratar como inimigo. Cento e vinte e uma vidas ceifadas em um único dia — e o governador do Rio de Janeiro chama isso de “sucesso”.
É o triunfo da barbárie travestido de política pública. É o Estado operando a necropolítica em sua forma mais explícita: o poder de decidir quem vive e quem morre, exercido com a frieza de quem aperta o gatilho e com a conivência de quem aplaude o som do disparo.
Não há nada de “operação” no que se viu nas favelas do Alemão e da Penha. O que houve foi uma execução coletiva, uma chacina legitimada pela estrutura racista que sustenta o país desde a senzala. O que se registrou não foi uma ação de segurança — foi o retrato cru de um genocídio cotidiano.
Corpos sem cabeça, desfigurados, despidos de qualquer dignidade.
Vidas reduzidas a estatísticas, exibidas como troféus de uma guerra que só tem um lado armado pelo Estado.
Cláudio Castro comemora. A mídia oficial reproduz. Parte da sociedade silencia — ou, pior, aplaude. É o pacto da branquitude em plena ação, aquele que naturaliza a morte negra enquanto chama de tragédia o arranhão no Leblon.
A operação que matou mais de uma centena de pessoas é o resultado direto da lógica necropolítica que entende a favela como território inimigo e seus moradores como alvos legítimos.
Achille Mbembe não falava do Brasil, mas poderia.
Quando cunhou o termo necropolítica, descreveu precisamente o que vivemos: um Estado que administra a morte como ferramenta de controle social. Aqui, a favela é o campo de extermínio moderno, e o helicóptero blindado substitui o tronco colonial.
A diferença é estética; a essência é a mesma.
O governo do Rio chama de “guerra ao crime” o que é, na verdade, uma guerra contra o povo negro.
A operação não prende, não investiga, não transforma — ela elimina.
Elimina porque o projeto é esse: conter pela bala o que o Estado nunca quis libertar pela dignidade.
Educação, saúde, moradia, cultura — tudo isso exige investimento, diálogo e humanidade.
A bala é mais barata e mais eficiente para quem governa sob a lógica da exclusão.
O que se viu foi o inominável: mães desmaiando, pais desesperados, o cheiro da morte impregnando o ar.
“Ontem, aqui, existiu a pena de morte.”
Sim — o Brasil inventou sua própria pena de morte, aplicada sumariamente, sem julgamento, sem defesa — mas sempre com o mesmo perfil de vítimas: jovens, negros e pobres.
Enquanto isso, o Estado lava as mãos e criminaliza até o luto. Instaura inquérito não para apurar o massacre, mas para investigar as famílias que recolheram os corpos dos seus.
É o ápice da perversidade institucional: punir quem chora.
Não há democracia onde o Estado escolhe quem deve morrer.
Não há justiça onde a favela é tratada como território de exceção.
O que há é um projeto político de morte, sustentado pelo medo, pela omissão e pela indiferença.
E é preciso dizer, com toda a força das palavras:
não há “excesso” em uma operação que deixa 121 mortos — há política. Há método. Há racismo. Há Estado.
Enquanto o poder continuar mirando a favela pela mira do fuzil, o Brasil seguirá sendo um país que mata para governar.
Um país que faz da necropolítica sua forma mais eficiente de gestão.
Um país que, ao invés de proteger a vida, se orgulha de quantas vidas consegue eliminar.
E quando o último tiro ecoar no morro, talvez reste apenas o silêncio.
O mesmo silêncio cúmplice que, há séculos, embala o genocídio da população negra.
Mas é preciso gritar.
Porque o que se cala, consente.
E o que se cala, morre.














