Uma crônica diacrônica sobre passageiros de primeira e cidadãos de última
O linguista suíço Ferdinand de Saussure nasceu em Genebra, em 26 de novembro de 1857, e faleceu em 22 de fevereiro de 1913. Considerado um dos fundadores da linguística moderna, distinguiu a sincronia, estudo da língua em determinado momento, da diacronia, análise de suas transformações ao longo do tempo.
Resolvi aplicar a diacronia não apenas às palavras, mas também à compra de uma passagem de ônibus.
Antigamente, comprar uma passagem era uma experiência quase primitiva de tão humana. A pessoa chegava ao guichê, dizia para onde queria ir, escolhia o horário, entregava o dinheiro e recebia o bilhete. Se houvesse algum problema, o funcionário chamava o gerente. O gerente resolvia. E o ônibus partia levando passageiros, não senhas, protocolos e crises existenciais.
Depois veio a modernidade.
O guichê desapareceu, o funcionário virou aplicativo, o dinheiro tornou-se suspeito e o bilhete transformou-se em QR Code. A antiga frase “uma passagem de ida e volta, por favor” evoluiu diacronicamente para:
“Seu pagamento não pôde ser processado. Tente novamente mais tarde.”
Mais tarde quando? Depois do show? No próximo Rock in Rio? Na próxima etapa da evolução humana?
Eu queria apenas comprar uma passagem de ida e volta no ônibus executivo de Primeira Classe para o Rock in Rio. Primeira Classe no nome e, indiscutivelmente, no preço: R$ 220.
Por esse valor, imaginei que o ônibus viesse me buscar em casa, que um mordomo carregasse minha mochila e que, durante o trajeto, fossem servidos champanhe francês, salmão norueguês e uma breve palestra sobre a história do rock.
Nada disso.
Os R$ 220 davam apenas o direito de tentar comprar a passagem.
Entrei no site. O site pediu cadastro. Fiz o cadastro. O cadastro exigiu nome completo, CPF, telefone, e-mail, data de nascimento e uma senha com letra maiúscula, minúscula, número, símbolo, hieróglifo egípcio e, provavelmente, uma lembrança afetiva da infância.
Criei a senha.
O sistema respondeu que ela era fraca.
Acrescentei números, sinais, arrobas, sustenidos e uma exclamação. A senha ficou tão forte que nem eu consegui mais entrar.
Cliquei em “Esqueci minha senha”, embora tivesse acabado de criá-la.
Recebi um código por e-mail. O código expirou antes de chegar. Solicitei outro. O segundo chegou, mas o sistema já esperava o terceiro. Quando finalmente consegui avançar, apareceu uma sequência de fotografias para que eu provasse que não era um robô.
Selecionei semáforos, bicicletas, faixas de pedestres, ônibus e hidrantes. Esqueci um pedaço de motocicleta escondido no canto inferior de uma fotografia e fui reprovado pela inteligência artificial.
Era a máquina exigindo que eu demonstrasse minha humanidade antes de me permitir pagar.
Escolhi o dia, o ponto de embarque em Ipanema, o horário e a quantidade de passageiros. Conferi tudo. Respirei. Cliquei.
“Não foi possível concluir sua solicitação.”
Qual solicitação? A de comprar? A de viajar? A de continuar acreditando na civilização?
Tentei novamente. O lugar aparecia disponível. Cliquei. Desapareceu. Atualizei a página. Voltou. Cliquei outra vez. Sumiu novamente.
O bilhete brincava comigo como se também fizesse parte das atrações do festival.
Quando finalmente cheguei ao pagamento, o cartão não passou. Talvez o banco tenha considerado a operação suspeita. E não tiro sua razão: pagar R$ 220 por uma passagem de ônibus realmente pode parecer tentativa de fraude.
A essa altura, a prometida experiência de Primeira Classe já havia consumido toda a minha paciência de passageiro da classe trabalhadora.
Eis a nossa extraordinária evolução diacrônica: antes, o pobre não conseguia comprar porque não tinha dinheiro. Agora, mesmo tendo dinheiro, pode não conseguir porque não domina o aplicativo, não recebe o código, não compreende a plataforma, não possui o cartão aceito ou não consegue provar para uma máquina que é um ser humano.
Chamamos isso de inclusão digital.
No Brasil, criamos sistemas supostamente inteligentes que excluem justamente aqueles que mais precisam de simplicidade. A tecnologia, que deveria facilitar a vida, transformou-se em uma nova catraca social. Quem não sabe preencher, confirmar, autenticar, atualizar, validar e escanear fica do lado de fora — não porque lhe faltem vontade ou dinheiro, mas porque o algoritmo decidiu que sua existência não atende aos requisitos da plataforma.
É a velha desigualdade brasileira vestindo roupa nova.
Antes, havia uma placa dizendo: “Entrada proibida”. Agora, aparece uma mensagem mais moderna e educada:
“Algo deu errado. Tente novamente.”
A exclusão ganhou design, identidade visual e atendimento automatizado.
Sem conseguir concluir a compra, fui pessoalmente ao ponto de embarque de Ipanema. Foi ali, no mundo real — essa plataforma antiquada onde pessoas ainda conversam com pessoas —, que encontrei Diego, combatente da Go2 Events.
Diego não me mandou limpar o histórico do navegador, atualizar o aplicativo, reinstalar o sistema nem conversar com um robô que responde tudo, menos aquilo que foi perguntado. Fez algo quase subversivo na era da inteligência artificial: ouviu.
Depois, compreendeu.
E, para completar seu gesto revolucionário, tentou resolver.
Diego conversou com seu supervisor e conseguiu uma autorização para que eu efetuasse o pagamento via Pix.
Ufa!
No final, não foram o aplicativo sofisticado, o cartão internacional, o algoritmo, a inteligência artificial nem a soberba tecnológica que me colocaram no ônibus de Primeira Classe. Foram um trabalhador disposto a ajudar, um supervisor capaz de autorizar e uma ferramenta brasileira simples e eficiente: o Pix.
Salve Diego!
Salve o SUS e salve o Pix — nossa colaboração humanitária a essa gente que vive de soberba tecnológica!
Do SUS, eles podem precisar quando o sistema lhes causar uma crise de ansiedade. Do Pix, quando descobrirem que o cliente ainda precisa conseguir pagar. E de Diego, quando finalmente perceberem que nenhuma inteligência artificial substitui a inteligência humana acompanhada de boa vontade.
Saussure mostrou que as palavras mudam e adquirem novos sentidos ao longo do tempo. “Facilidade”, por exemplo, já significou aquilo que era simples. Hoje significa baixar um aplicativo, criar uma conta, produzir uma senha indecifrável, confirmar o e-mail, receber um código, provar que não se é um robô, cadastrar o cartão, ter o pagamento recusado e procurar um ser humano que consiga autorização para aceitar Pix.
“Primeira Classe” também mudou de significado.
Antigamente, significava conforto e privilégio. Agora significa pagar mais caro para enfrentar dificuldades exclusivas.
E assim terminou minha pequena aventura diacrônica: do guichê ao algoritmo, do dinheiro ao cartão recusado, da inteligência artificial à inteligência de Diego, do ônibus de Primeira Classe à última reserva de paciência.
Consegui finalmente comprar a passagem.
Agora só faltava torcer para o celular não ficar sem bateria — porque, na sociedade mais tecnologicamente avançada de todos os tempos, um cidadão pode ter dinheiro, documento, passagem e lugar reservado, mas, se a bateria acabar, deixa de existir.
Eu, com alguma intimidade tecnológica, cartão de crédito, telefone moderno e disposição para insistir, quase fui derrotado pelo sistema.
Agora fico imaginando Severino de Maria tentando comprar um bilhete de Primeira Classe.
Primeiro, o sistema lhe pediria o nome completo:
— Severino de Maria.
— Nome da mãe?
— Maria.
— Sobrenome?
— Do finado Zacarias.
O aplicativo provavelmente responderia que os dados não conferem. Depois exigiria CPF, endereço eletrônico, senha com oito caracteres, letra maiúscula, número, símbolo e uma vida inteira resumida em campos obrigatórios.
Severino, que atravessou a fome, a seca, a migração e a desigualdade, seria finalmente derrotado não pela falta de coragem, mas pela ausência de uma letra maiúscula na senha.
Para provar que não era um robô, teria de selecionar todos os quadradinhos contendo semáforos — embora em sua estrada quase nunca houvesse sinal verde.
Se chegasse ao pagamento, descobriria que a Primeira Classe custa R$ 220. O sistema aceitaria cartão internacional, mas desconfiaria do dinheiro do retirante.
Talvez aparecesse na tela:
“Pagamento recusado. Procure outra forma de vida.”
E Severino seguiria a pé, como tantos Severinos sempre seguiram, enquanto o ônibus de Primeira Classe partiria climatizado, conectado e vazio de humanidade.
— Alto lá, Severino! Primeira Classe não é lugar para ti. Teu lugar é na favela ou na portaria luxuosa de algum condomínio, ajudando a carregar o peso das compras das madames e apertando o botão do elevador para que a elite continue subindo na vida.
Tu permaneces no térreo, espiando a vida passar pela porta de vidro, passageiro permanente da agonia de uma sociedade que te exclui e condena teus filhos a herdar a mesma distância das riquezas de uma pátria que, para vocês, nunca foi mãe — e muito menos gentil.
Agora fico imaginando o Severino de Maria, como há muitos Severinos com mães chamadas Maria, que ficou sendo o da Maria do finado Zacarias, tentando comprar um bilhete de Primeira Classe para ir a uma festa repleta de gente esquisita.
Haja birita para suportar tamanha desdita. E haja saudade do sertão, donde a viola enamora a lua e a fogueira aquece a alma.














