
Operação Contenção deixou 122 mortos, resultou em denúncias contra 28 policiais enquanto responsáveis pela segurança pública foram eleitos, familiares ainda aguardam respostas
Um ano após a operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro, os resultados da ação realizada nos complexos da Penha e do Alemão continuam sendo questionados. A Operação Contenção, deflagrada em 28 de outubro de 2025, mobilizou cerca de 2.500 agentes de segurança, deixou 122 mortos e não conseguiu capturar algumas das principais lideranças criminosas que motivaram a ofensiva.
Nesta quarta-feira (28), data que marca o primeiro aniversário da operação, pelo menos 33 alvos de mandados de prisão permanecem foragidos. Enquanto isso, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) investiga as circunstâncias das mortes e já apresentou 12 denúncias contra 28 policiais militares por irregularidades cometidas durante a ação.
O balanço de um ano também revela um contraste político: autoridades que participaram da condução da operação conquistaram cargos eletivos nas eleições de 2026, enquanto familiares das vítimas seguem cobrando esclarecimentos sobre o que aconteceu naquele dia.
Principais alvos continuam foragidos
A Operação Contenção foi apresentada pelo governo estadual como uma ofensiva para enfraquecer o Comando Vermelho e combater a expansão territorial da organização criminosa.
Antes da ação, o Ministério Público havia denunciado 69 suspeitos. A Justiça expediu mandados de prisão contra 51 deles, além de autorizar buscas em 145 endereços.
Ao longo da operação, 99 pessoas foram presas, mas apenas 17 eram alvos dos mandados judiciais. As outras 82 prisões ocorreram em flagrante.
Entre os procurados que permanecem foragidos está Edgar Alves de Andrade, conhecido como Doca, apontado pelas investigações como uma das principais lideranças do Comando Vermelho.
Outros integrantes identificados como Gardenal e Pedro Bala também não foram capturados.
Apesar do número de prisões e das apreensões de armamentos, a permanência de lideranças criminosas em liberdade levanta questionamentos sobre a efetividade da operação e sua capacidade de produzir mudanças duradouras na segurança pública.
Policiais são denunciados, mas mortes seguem sem esclarecimento
Um ano depois, o Ministério Público ainda trabalha para reconstruir as circunstâncias das 122 mortes registradas durante a operação, incluindo as de cinco agentes de segurança.
O Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (Gaesp) apresentou 12 denúncias contra 28 policiais militares por crimes como furto, roubo, peculato, violação de domicílio, constrangimento ilegal de moradores e recusa de obediência.
As denúncias não representam condenações e não significam que os agentes tenham sido responsabilizados criminalmente pelas mortes.
A investigação sobre a letalidade da operação permanece em andamento.
Para esclarecer os acontecimentos, o Ministério Público analisa mais de quatro mil horas de gravações de câmeras corporais, 122 laudos médico-legais e 262 depoimentos de agentes públicos.
O trabalho também inclui relatos de moradores e familiares das vítimas.
Entretanto, a apuração enfrenta dificuldades. Parte dos policiais não utilizava câmeras corporais, enquanto outros equipamentos apresentaram problemas, incluindo desligamentos e baterias descarregadas.
A ausência de registros completos dificulta a reconstrução dos confrontos e a identificação de possíveis responsabilidades individuais.
Familiares e moradores relataram suspeitas de execuções e tortura. Essas denúncias continuam sob investigação e ainda não tiveram todas as circunstâncias esclarecidas.
Responsáveis pela segurança pública conquistaram cargos políticos
A operação ocorreu durante o governo de Cláudio Castro (PL), que comandava o Executivo estadual quando a ofensiva foi realizada.
Entre as principais autoridades da segurança pública estavam Felipe Curi, então secretário de Polícia Civil, e Marcelo Menezes, então secretário da Polícia Militar.
Nas eleições de 2026, os dois conquistaram mandatos parlamentares. Curi foi eleito deputado federal, enquanto Menezes conquistou uma cadeira na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
O delegado Bernardo Leal, que também participou da operação, foi eleito deputado estadual.
O resultado eleitoral evidencia como a atuação na segurança pública se tornou parte da projeção política de autoridades ligadas à operação.
A responsabilidade política pela condução das forças de segurança, entretanto, deve ser distinguida de eventual responsabilidade criminal, que depende de investigação e comprovação individual.
Violência diminuiu, mas domínio territorial permanece em discussão
Dados do Instituto Fogo Cruzado apontam redução nos registros de tiroteios nos complexos da Penha e do Alemão após a operação.
Os registros passaram de 41 para 16 nos períodos analisados, mas especialistas alertam que a diminuição dos confrontos não significa necessariamente o enfraquecimento do Comando Vermelho.
O controle territorial exercido por organizações criminosas envolve fatores que vão além da quantidade de tiroteios, incluindo a exploração econômica das comunidades e a manutenção de estruturas armadas.
A situação das escolas também revela que os efeitos da violência continuam presentes no cotidiano dos moradores.
No Complexo do Alemão, o número de unidades municipais que precisaram interromper as atividades ao menos uma vez por causa de operações policiais ou confrontos passou de 25 para 29 na comparação entre os períodos analisados.
Na Penha, 16 escolas foram afetadas em cada um dos intervalos.
Os dados mostram que, apesar da redução de determinados indicadores de violência, crianças, adolescentes e famílias continuam convivendo com os impactos da insegurança.
Famílias cobram justiça um ano depois
Nesta quarta-feira (28), familiares das vítimas, moradores e movimentos sociais se mobilizam na Praça São Lucas, na Penha, para lembrar as pessoas mortas durante a operação.
Organizada pela Frente Penha, a manifestação reúne reivindicações por justiça, esclarecimento das mortes e políticas públicas que garantam segurança sem violação de direitos.
Para as famílias, o primeiro aniversário da operação representa não apenas a lembrança de um dos episódios mais violentos da história recente do Rio de Janeiro, mas também a continuidade de uma espera por respostas.
A investigação conduzida pelo Ministério Público ainda não apresentou uma conclusão definitiva sobre as circunstâncias de todas as mortes.
O órgão afirma que segue analisando provas e buscando testemunhas para identificar eventuais responsabilidades.
Passado um ano, o balanço da Operação Contenção reúne 122 mortes, dezenas de alvos ainda foragidos e investigações inconclusas sobre a atuação das forças de segurança.
Enquanto autoridades envolvidas na condução da operação avançaram na carreira política, famílias da Penha e do Alemão continuam aguardando respostas sobre as mortes de seus parentes.













