Foto: James Barreiros
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Entre imagens, sons e corpo em movimento, a memória negra ganha novas formas de existir e resistir em Salvador. A instalação-performativa “OSSALITRES | 2ª crioullage”, criação do artista Diego Araúja, estreia temporada gratuita entre os dias 28 de março e 1º de abril de 2026, no Museu de Arte da Bahia (MAB), com duas sessões diárias, às 18h e 19h30.

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Realizada pela Plataforma ÀRÀKÁ, a obra propõe mais do que um espetáculo: é uma experiência sensorial que atravessa teatro, artes visuais e audiovisual para provocar reflexões sobre memória, identidade e política, especialmente no contexto das populações negras e periféricas.

Com performance da artista transdisciplinar Laís Machado, “OSSALITRES” dá continuidade à pesquisa do encenador Diego Araúja sobre o conceito de crioullage — uma poética que mistura linguagens artísticas a partir de uma perspectiva negra, valorizando diferentes saberes e formas de expressão.

A narrativa da obra parte de uma fabulação potente: um grupo fictício de intelectuais afrodiaspóricos e africanos que, na década de 1960, teria se reunido em Salvador para criar o chamado “Congresso de Sal”. Esses personagens, conhecidos como “salitres”, conduzem o público por uma espécie de manifesto performático que cruza memória, política e imaginação.

Foto: James Barreiros

Ao sobrepor imagens documentais de lutas negras no Brasil e no mundo com uma narrativa construída ao vivo, a obra tensiona passado e presente, realidade e ficção. O resultado é um fluxo contínuo, quase como um pensamento coletivo em cena.

“A ideia é provocar uma espécie de consciência negra no público”, explica Araúja. “A performer constrói, ao vivo, imagens, sons e narrativas que atravessam essa ficção como um fluxo de pensamento.”

Esse movimento dialoga diretamente com os desafios enfrentados por moradores de favelas e periferias, onde a memória histórica muitas vezes é fragmentada ou invisibilizada. Ao trazer essa discussão para o centro da cena, “OSSALITRES” reafirma a importância de preservar e recontar histórias a partir de perspectivas negras.

Experiência imersiva e linguagem crioula

A montagem transforma o espaço do museu em uma espécie de organismo vivo. Com dispositivos visuais e sonoros criados especialmente para a obra, o público é inserido em uma arquitetura efêmera que amplia a experiência sensorial.

A dramaturgia inclui textos do escritor camaronense Gilbert Ndi Shang e trilha sonora do músico moçambicano Matchume Zango, reforçando o diálogo internacional da produção e conectando diferentes territórios da diáspora africana.

Com duração entre 30 e 40 minutos, a obra assume seu caráter experimental. Cada apresentação é também um processo em construção, que se desenvolve a partir do encontro com o público.

Arte acessível e potência para as periferias

Com entrada gratuita, “OSSALITRES” amplia o acesso à produção artística contemporânea e fortalece a presença de narrativas negras em espaços institucionais como o museu — um movimento fundamental para democratizar a cultura.

Para além da experiência estética, a obra se conecta diretamente com debates urgentes sobre identidade, pertencimento e memória nas periferias e favelas, onde a cultura é também ferramenta de resistência, geração de renda e fortalecimento comunitário.

A iniciativa integra a trajetória da Plataforma ÀRÀKÁ, criada em 2016 por Diego Araúja e Laís Machado, que atua como um “quilombo criativo”, conectando artistas e territórios por meio da arte e da experimentação.

Contemplado por políticas públicas de fomento à cultura, o projeto reafirma o papel da arte como instrumento de transformação social — especialmente quando ocupa espaços públicos e dialoga com a realidade das populações historicamente marginalizadas.

criativos” —, a plataforma desenvolve projetos que conectam diferentes territórios e artistas, estabelecendo redes internacionais de intercâmbio. Sua atuação inclui trabalhos como QUASEILHAS , THEOMAI e o Fórum Obìnrin , além de participações em eventos e instituições no Brasil e no exterior, incluindo a 35ª Bienal de São Paulo (2023), com a criação “SUMIDOURO n.2 – Diáspora Fantasma”.

O projeto “OSSALITRES, 2ª crioullage” foi contemplado pela edição Gregórios – Ano IV com recursos financeiros da Fundação Gregório de Mattos, Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, Prefeitura de Salvador e da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento