O território de Nossa Senhora do Ó, em Paulista (PE), está sendo palco de uma experiência única de valorização da cultura, da memória e da produção audiovisual comunitária. Por meio da oficina “Compartilhamento de Saberes através do Cinema Documental”, ministrada por Renata Mesquita e Rennan Peixe no espaço cultural Kardume, jovens e moradores locais estão aprendendo a documentar suas próprias histórias, saberes e vivências.
A atividade integra um projeto apoiado pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), que visa ampliar o acesso à linguagem audiovisual como ferramenta de resistência e afirmação de identidade, sobretudo em territórios historicamente marginalizados.
“É mágico documentar nossa história e sair da oralidade para o registro visual. Agora temos um documentário sobre o território feito por quem vive nele”, relata Fil, idealizador do espaço Kardume, que também destaca o caráter afetivo da parceria com Renata e Rennan: “Já trabalhamos juntos antes e agora eles estão aqui compartilhando com a nossa comunidade.”
Do território para o território
Renata Mesquita, cientista social, antropóloga e produtora cultural, vê na oficina uma via de mão dupla. “Levo daqui o acolhimento e aprendo muito sobre a cultura desse território, que envolve pesca, grafitagem, arte e resistência. A ideia é compartilhar os saberes a partir das nossas escrevivências”, explica.
Essa troca entre quem chega e quem acolhe transforma a oficina em um potente espaço de retroalimentação cultural. “O cinema documental contribui para tornar visíveis saberes que muitas vezes são esquecidos ou invisibilizados. Registrar é também salvaguardar”, completa Renata.


Nós por nós: o audiovisual como ferramenta de emancipação
Para a grafiteira e educadora social Nathê Ferreira, moradora de Jaboatão dos Guararapes e colaboradora do Kardume, é fundamental que os próprios moradores sejam sujeitos da narrativa. “Historicamente, nossas vivências foram registradas por quem estava acima de nós, com um olhar exotificado. Agora é diferente: nós contamos nossas próprias histórias”, afirma.
Ela aponta ainda o risco do apagamento da memória oral caso não haja registros: “Sem romantizar, a oralidade também sofre com o esquecimento. Se não documentarmos, as histórias se perdem”.
Ancestralidade e juventude conectadas pela imagem
Fotógrafo, artista visual e educador, Rennan Peixe afirma que sua atuação visa produzir imagens que valorizem culturas tradicionais frequentemente estigmatizadas. “Trabalho com comunidades de candomblé e culturas populares, e trago essa perspectiva de construção visual contra-colonial para o Kardume. A ideia é formar jovens para que eles produzam suas próprias narrativas com consciência crítica sobre o território.”
Ele ressalta o papel da imagem como ponte entre gerações. “A oficina conecta o novo e o velho. O audiovisual é algo que atrai a juventude, e através dele mostramos a importância da ancestralidade e da valorização da cultura local.”
Respeito, escuta e presença
Ao final, Rennan deixa um conselho para quem está começando no audiovisual: “Respeite o território e a cultura do outro. Conhecimento não depende de graduação, e sim de escuta, de saber ouvir. É respeitando os mais velhos que podemos ir mais longe.”
O Kardume segue como um espaço de potência criativa e incubadora de saberes. Através do audiovisual, a comunidade de Nossa Senhora do Ó reafirma sua voz e projeta suas histórias para além das fronteiras locais, com o protagonismo que sempre lhe foi negado — mas que agora é conquistado pela própria lente.














