Foto: Reprodução/CNTE
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A nova geração desafia os modelos tradicionais de participação política, ocupa espaços de liderança e reivindica voz nas decisões que definem o futuro do país.

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A política brasileira está diante de uma geração que não quer apenas acompanhar as decisões tomadas por outros. A Geração Z, formada por jovens que cresceram em meio à expansão da internet e das redes sociais, começa a reivindicar um papel mais ativo na construção dos caminhos políticos e sociais do país.

Com novas formas de comunicação, mobilização e organização coletiva, esses jovens questionam estruturas tradicionais de poder e colocam em debate temas como representatividade, desigualdade, educação, oportunidades, direitos humanos e participação popular.

Mais do que uma mudança de comportamento, esse movimento representa uma disputa por espaço. Durante décadas, a juventude foi frequentemente tratada como uma parcela da sociedade que precisava ser preparada para o futuro. Agora, uma parte dela reivindica participação nas decisões do presente.

Nas periferias e favelas, essa discussão ganha contornos ainda mais importantes. Jovens que convivem diariamente com a desigualdade social, a falta de oportunidades e a ausência de políticas públicas também estão construindo formas próprias de organização e liderança.

A reivindicação é clara: não basta que a juventude seja lembrada durante as campanhas eleitorais. Ela precisa participar da elaboração das políticas públicas, acompanhar os investimentos e ter condições reais de ocupar os espaços de decisão.

Da internet às instituições: a disputa por representatividade

A presença da juventude na política também aparece nos números. Nas eleições municipais de 2024, o Brasil elegeu 119 prefeitos com até 29 anos, mais de três vezes o número registrado em 2020, quando foram eleitos 36 representantes nessa faixa etária. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) também identificou crescimento da participação de pessoas mais jovens entre os eleitos para as câmaras municipais. Tribunal Superior Eleitoral

Entretanto, o avanço ainda não representa igualdade de oportunidades. Nas eleições de 2026, levantamento divulgado pela Folha de S.Paulo apontou que candidaturas de pessoas de 16 a 29 anos correspondiam a apenas 4,7% dos registros para o Legislativo, embora essa faixa etária representasse 21,55% do eleitorado. Folha

O contraste revela uma questão importante: a juventude tem peso na sociedade e no eleitorado, mas ainda encontra dificuldades para chegar aos espaços institucionais de decisão.

Entre os obstáculos estão o acesso ao financiamento de campanhas, a falta de apoio partidário, a desigualdade de oportunidades e a resistência de estruturas políticas tradicionais à renovação de lideranças.

Para jovens negros, mulheres e moradores de periferias, o desafio pode ser ainda maior. A representatividade não depende apenas de abrir espaço para pessoas mais jovens, mas também de permitir que diferentes realidades sociais estejam efetivamente representadas.

Quando a juventude transforma participação em protagonismo

O protagonismo juvenil não começa necessariamente dentro de uma Câmara Municipal ou de uma Assembleia Legislativa. Muitas vezes, nasce nas escolas, nas associações comunitárias, nos coletivos culturais, nos movimentos estudantis e nas organizações de bairro.

Um exemplo de mobilização foi registrado pelo UNICEF em Floresta do Araguaia, no Pará. Adolescentes integrantes dos Núcleos de Cidadania de Adolescentes (NUCAs) organizaram ações nas escolas para incentivar outros jovens a participar das eleições de 2026 e conhecer seus direitos.

A mobilização contribuiu para um aumento expressivo na emissão de títulos eleitorais entre adolescentes de 16 e 17 anos no município. Os próprios jovens passaram a atuar como multiplicadores de informação e participação cidadã. UNICEF Brasil

A experiência demonstra que a participação política pode começar muito antes de uma candidatura. Informar, mobilizar, reivindicar e acompanhar as decisões públicas também são formas de exercer cidadania.

Essa participação encontra respaldo no Estatuto da Juventude, instituído pela Lei nº 12.852/2013, que reconhece os jovens como sujeitos de direitos e estabelece diretrizes para sua participação na formulação, implementação e avaliação de políticas públicas.

A periferia também produz lideranças

Quando o debate sobre a Geração Z chega às favelas, a discussão sobre poder ganha outra dimensão.

A juventude periférica não reivindica apenas representação política. Reivindica condições concretas de existência: escolas estruturadas, acesso à universidade, oportunidades de trabalho, cultura, esporte, mobilidade urbana e políticas públicas que considerem as necessidades de cada território.

Muitos jovens encontram nos coletivos comunitários e nas iniciativas sociais caminhos para transformar problemas cotidianos em pautas públicas.

A questão que se coloca é: por que jovens que conhecem de perto os problemas de suas comunidades ainda encontram tantas barreiras para participar das decisões que determinam o futuro desses territórios?

Para a ANF, esse é um dos pontos centrais da reportagem. A favela não pode aparecer apenas como destinatária de políticas públicas. Seus moradores, especialmente os jovens, precisam ser reconhecidos como agentes capazes de formular propostas, fiscalizar governos e participar da construção de soluções.

Ocupar o poder também significa disputar quem tem o direito de falar, decidir e representar a sociedade.

O desafio de transformar visibilidade em poder real

As redes sociais ampliaram a possibilidade de jovens participarem dos debates públicos, mas visibilidade não significa necessariamente influência política.

Ter milhares de seguidores não garante acesso às decisões institucionais. Da mesma forma, participar de manifestações ou produzir conteúdo político não significa, automaticamente, conseguir transformar reivindicações em políticas públicas.

O desafio da Geração Z é construir uma participação que ultrapasse o ambiente digital e alcance espaços de decisão, organização e controle social.

A renovação política exige mais do que novos rostos. Exige transparência, compromisso público, diversidade, formação cidadã e abertura das instituições para ouvir quem historicamente teve pouca participação nas decisões.

A pergunta que permanece é se os partidos e as instituições estão preparados para dividir espaço com uma geração que não quer apenas herdar o sistema político, mas também questionar e transformar suas estruturas.

A Geração Z não é um grupo homogêneo e tampouco possui uma única orientação ideológica. Existem jovens de diferentes posições políticas, experiências e projetos de sociedade. O que está em disputa é o direito de participar, representar e influenciar os rumos do país.

O futuro da política brasileira também está sendo construído por aqueles que, durante muito tempo, foram considerados jovens demais para decidir.