Foto - Charles Trigueiro
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O que acontece quando duas pessoas atravessadas por diferenças de idade, raça, classe e condições de saúde se encontram e decidem apostar na possibilidade do amor? É a partir dessa pergunta que o poeta e artista visual Márcio Junqueira constrói “Você com 24, eu com 42”, performance literária que circula gratuitamente por Salvador, Santo Amaro e Cachoeira.

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A obra narra a relação entre um homem negro de 42 anos e um homem branco de 24. Interracial, intergeracional e sorodiscordante (quando uma pessoa vive com HIV e a outra não), o relacionamento é apresentado por meio de 33 fragmentos que atravessam afeto, desejo, identidade, memória e as diferenças que também fazem parte de uma experiência amorosa.

Durante aproximadamente 70 minutos, o próprio artista realiza a leitura dos textos, acompanhado por DJ e projeções de desenhos produzidos por ele. A proposta desloca a literatura do espaço tradicional da página e transforma a leitura em uma experiência coletiva, na qual palavra, corpo, imagem e música se encontram.

“Esse trabalho nasceu como livro, mas fui entendendo que a leitura integral também poderia ser uma forma de publicação. Publicar, para mim, é tornar público. Quando o texto sai do papel e encontra o corpo, a música, a imagem e o público, ele ganha outras camadas”, explica Márcio.

A circulação passa por Salvador, durante a Feira Maré Literária, em Paripe; pelo Teatro Dona Canô, em Santo Amaro, no dia 11 de outubro; e pelo Cine Theatro Cachoeirano, em Cachoeira, no dia 28 de novembro. As apresentações são gratuitas e contam com acessibilidade em Libras.

Uma história contada em pedaços

Em vez de apresentar uma narrativa linear, Márcio organiza a história em fragmentos. As partes se juntam gradualmente e revelam diferentes momentos da relação, permitindo que o público acompanhe não apenas o encontro entre os personagens, mas também as tensões e possibilidades que surgem a partir das diferenças que atravessam os dois.

Para o artista, a questão central está justamente na possibilidade de construir um vínculo diante dessas marcas.

“Como é possível construir um encontro amoroso e afetivo entre dois sujeitos atravessados por tantas diferenças? É uma história que lida com todas essas marcas, mas que também enuncia explicitamente que gostaria de ter um final feliz”, afirma.

A discussão faz parte de uma trajetória artística e acadêmica voltada para temas como masculinidades negras, homoerotismo, memória e escritas de si. Ao abordar uma relação entre dois homens, Márcio também procura fugir de narrativas que apresentem pessoas negras LGBT+ apenas a partir da violência e da discriminação.

“Como artista negro e LGBT+, me interessa produzir obras que não reduzam esses sujeitos apenas ao racismo ou à violência. Me interessa orbitar outras possibilidades de existência. As histórias constroem nosso imaginário e, por isso, também precisamos produzir narrativas cuidadosas sobre pessoas negras LGBT+ vivendo, amando, desejando e construindo memória”, pontua.

Do livro para o corpo

“Você com 24, eu com 42” começou a ser desenvolvido entre 2023 e 2024, enquanto Márcio cursava o doutorado em Artes Visuais na Universidade Federal da Bahia (UFBA). A ideia inicial era criar um livro de artista, mas as experiências de leitura integral fizeram com que o trabalho encontrasse outro caminho.

A primeira experiência aconteceu no Rio de Janeiro e, posteriormente, durante o Open Studio de uma residência artística da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), em São Paulo, em 2024.

“Essas leituras foram a fagulha para perceber o livro também como performance”, conta.

O projeto reúne literatura, desenho e fotografia e segue em processo de publicação impressa. Para Márcio, a circulação antes da chegada do livro físico não é apenas uma etapa de divulgação, mas parte da própria linguagem da obra.

“Em algum momento esse projeto vai se tornar um livro físico, mas me interessa essa fricção entre códigos: da literatura para a performance, da página para o corpo, da leitura individual para uma experiência coletiva”, afirma.

Entre as referências que atravessam seu trabalho estão Laurie Anderson, Arnaldo Antunes, Maria Bethânia, Leonilson, Ana Cristina Cesar e Natasha Felix.

Mais do que provocar uma reflexão sobre as diferenças que atravessam a relação, Márcio espera que a performance também produza uma experiência de afeto para quem assiste.

“Eu gostaria de comover e encantar. Que as pessoas saíssem com alguma fé no amor e na possibilidade do encontro. Com um quentinho no coração e alguma vontade de apostar no outro.”

O projeto “Você com 24, eu com 42” foi contemplado pelos Editais da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura na Bahia, realizados com recursos do Governo Federal, por meio do Ministério da Cultura, e executados pelo Governo do Estado da Bahia, através da Secretaria de Cultura do Estado.