Foto: Reprodução/rede social
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As histórias de mulheres negras do Pina e do Ibura de Baixo, no Recife, agora também ocupam as páginas de um livro. Na quarta-feira (4), o Centro Dom Helder Camara de Estudos e Ação Social (Cendhec) lançou o e-book “Nós Estivemos Aqui”, publicação construída por 39 participantes da formação política “Libélulas: mulheres protagonistas pela justiça climática”. O material está disponível gratuitamente no site do Cendhec.

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A publicação nasceu de um ciclo de oficinas de escrita realizado entre abril e maio de 2026, no Pina e no Ibura de Baixo. Os encontros aconteceram no Projeto Criança Urgente (Procriu) e no Centro Comunitário Mário Andrade, organizações comunitárias parceiras do Cendhec. A jornalista e pesquisadora Conceição Tomaz conduziu as atividades e também assina a orientação, a curadoria e a organização editorial do livro.

Conceição explica que a publicação foi construída a partir das vivências das participantes, que encontraram na escrita uma forma de registrar o que sabem e vivenciam em seus territórios.

“A construção do livro digital Nós Estivemos Aqui é um desdobramento das oficinas de escrita. Ao longo dos encontros, a escrita foi sendo alinhavada a partir das experiências individuais e coletivas das participantes, compreendendo que suas histórias também produzem conhecimento: a partir e sobre os seus territórios e, claro, sobre as questões que circundam as suas vidas.”

O livro reúne diferentes camadas das trajetórias das participantes e mostra como a escrita pode contribuir para o registro de experiências pessoais e coletivas. Os textos partem do cotidiano das autoras e revelam as relações que elas constroem com seus territórios e com as questões que atravessam suas vidas.

“A publicação reúne os textos produzidos enquanto elas viviam a própria vida: o trabalho, a correria, os problemas, as consequências de ausência de políticas públicas efetivas durante as chuvas, por exemplo. Elas escreveram também sobre afeto, comunidade, luto e saúde mental”, explica Conceição.

O ponto de partida das oficinas foi a escrevivência, conceito criado pela escritora Conceição Evaristo para pensar a escrita de pessoas negras a partir das experiências vividas. As atividades foram organizadas a partir dos eixos Corpo, Memória, Território e Futuro.

Na prática, escrever também significou olhar para dentro e revisitar experiências. Para Conceição, o corpo ocupa um lugar importante nesse processo.

“Minha percepção é de que a escrita também pode ser um caminho para reconhecer aquilo que nos atravessa. Aliás, o primeiro módulo da oficina é sobre corpo e como ele é nosso primeiro texto, mas, muitas vezes, não encontra espaço para ser dito.”

Foi nesse espaço de escrita que as participantes puderam experimentar palavras, recuperar lembranças e construir suas próprias narrativas. “Nesse processo, as mulheres puderam experimentar suas palavras, revisitar memórias e construir narrativas próprias. O e-book é, nesse sentido, um registro e uma pausa dessas experiências e da força dessas mulheres. E isso só é possível quando criamos espaços para que nossas histórias sejam compartilhadas”, afirma Conceição.

As autoras vivem em comunidades como Bode, Paz e Amor e Sítio Santa Francisca. São estudantes, marisqueiras, empregadas domésticas, educadoras sociais, cuidadoras de idosos e trabalhadoras de serviços não formais. Entre elas está Tamires Freitas, que encontrou na escrita uma maneira de reconhecer sua própria trajetória. Para ela, o processo foi marcado pela satisfação de escrever sobre algo que conhecia de perto, mas também pela emoção de revisitar determinadas lembranças.

“A minha participação no processo de escrita foi tranquila, porque ali eu estava falando sobre a minha vida, sobre a minha vivência, sobre as minhas histórias. Às vezes é um pouco triste relembrar o que a gente viveu, mas é necessário pra gente ver o quanto  mudamos e evoluímos.”

Tamires também chama atenção para a importância de registrar as histórias que nascem nas periferias. Para ela, não é preciso ocupar um lugar de destaque para ter algo que mereça ser contado.

“Amei poder dividir um pouco da minha história nesse espaço tão importante, para que outras pessoas também se sintam inspiradas, que venham entender histórias de pessoas periféricas. e sem o nosso compartilhamento, ninguém nunca saberá sobre nossas histórias. Então, para mim, é bastante necessário que as pessoas escrevam suas histórias. Não precisa ser uma pessoa importante ou ter o que escrever. Só a história da pessoa, em si, já é algo que pode inspirar outras pessoas”, concluí.

A formação “Libélulas” é realizada pelo Cendhec desde 2024 e está em seu terceiro módulo. O curso trabalha as relações entre gênero, raça, classe e território e discute direito à cidade, justiça socioambiental, racismo ambiental e os impactos das mudanças climáticas nas comunidades. A proposta também busca fortalecer a participação comunitária e a atuação das mulheres no controle social das políticas urbanas.

As oficinas foram acompanhadas por Cristinalva Lemos, assistente social que assina o prefácio da publicação, e Nathalya Kelly, estagiária de Serviço Social. As duas integram a equipe do Cendhec e atuam na facilitação do curso “Libélulas” desde 2024.

O livro integra o projeto “Defesa de direitos, formação e comunicação popular no enfrentamento às mudanças climáticas”, apoiado pelas organizações alemãs Misereor e Kindernothilfe (KNH).

acesse o link para baixar o e-book: Nós Estivemos Aqui