Samba, funk, passinho e hip-hop mostram a participação dos territórios populares na produção artística e na preservação de memórias
Nas rodas de samba, nos bailes funk, nas batalhas de rima e nos saraus, moradores de favelas e periferias produzem e compartilham cultura. Neste 5 de novembro, Dia Nacional da Cultura, essas expressões ajudam a olhar para os territórios populares como espaços de criação, trabalho e construção da memória brasileira.
A data tem origem na Lei nº 5.579, de 1970, que instituiu o Dia da Cultura e da Ciência. A escolha homenageia o nascimento de Rui Barbosa, em 5 de novembro de 1849. Para além da referência histórica, a ocasião permite discutir quem produz cultura e quais condições existem para que essa produção continue circulando.
No Rio de Janeiro, a trajetória do samba revela a importância dos espaços comunitários na formação cultural do país. Quintais, terreiros, quadras e rodas são lugares de encontro e transmissão de conhecimentos entre gerações. O partido-alto, o samba de terreiro e o samba-enredo integram as Matrizes do Samba no Rio de Janeiro, registradas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como Patrimônio Cultural do Brasil em 2007. O título foi revalidado em 2025.
Essas manifestações também guardam diferentes formas de criação coletiva. O partido-alto tem no improviso uma de suas características; o samba de terreiro está ligado à convivência nas comunidades do samba; e o samba-enredo se consolidou na relação com as escolas e os desfiles de Carnaval.
Da dança às batalhas de rima
Outras gerações acrescentam movimentos, linguagens e tecnologias a essa produção. Ligado aos bailes funk e à criatividade de jovens das favelas cariocas, o passinho ganhou circulação também por meio de vídeos na internet. As rodas de dança e a troca de coreografias fazem parte dessa história, documentada na justificativa da proposta apresentada à Assembleia Legislativa do Rio para reconhecer a manifestação como patrimônio.
No hip-hop, a criação reúne música, dança, artes visuais e conhecimento. DJ, MC, breaking, grafite e conhecimento são reconhecidos como elementos estruturantes pelo decreto federal de 2023 que estabeleceu diretrizes para a valorização dessa cultura. O texto também contempla batalhas, rodas culturais e slams, encontros de poesia falada.
Além do reconhecimento artístico, as diretrizes incluem formação, geração de renda, apoio a espaços culturais e participação de agentes do movimento nas políticas públicas. Há previsão de incentivo ao acesso de jovens moradores de favelas e periferias às atividades, assim como de valorização do protagonismo de mulheres, pessoas negras e outros grupos historicamente excluídos.
Cultura como trabalho e pertencimento
Por trás de apresentações e encontros estão compositores, dançarinos, DJs, produtores, técnicos e educadores. Olhar para essa rede significa reconhecer tanto a obra apresentada ao público quanto o trabalho necessário para ensaiar, organizar, ensinar, registrar e divulgar.
Nas favelas, a cultura também oferece meios para narrar o cotidiano a partir de quem vive nele. Uma letra, uma coreografia ou um poema podem preservar lembranças, expressar conflitos e apresentar outras imagens dos territórios.
Neste Dia Nacional da Cultura, colocar essa produção no centro do debate é reconhecer seus criadores e discutir acesso a recursos, espaços e condições de trabalho. A continuidade dessas expressões passa também pela possibilidade de seus protagonistas decidir como suas histórias serão contadas.














