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Guarani Kaiowá denunciam assassinatos, tentativas de homicídio e ameaças de envenenamento da água em Mato Grosso do Sul; Polícia Federal investiga os casos.

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O resultado de uma eleição deveria representar o exercício da democracia, nunca uma sentença de violência. Mas, no Mato Grosso do Sul, comunidades indígenas Guarani Kaiowá enfrentam uma sequência de denúncias graves após o segundo turno das eleições presidenciais, realizado em 25 de outubro.

Segundo informações divulgadas pela Agência Brasil, pelo menos cinco casos de assassinatos de indígenas na região, registrados desde 24 de outubro, estão sendo investigados. As denúncias também incluem tentativas de homicídio, intimidações e ameaças direcionadas às comunidades.

Um dos episódios mais preocupantes envolve um áudio atribuído a um funcionário da Prefeitura de Tacuru (MS), no qual há uma ameaça de envenenamento da água consumida pelos indígenas. Na gravação, o homem faz referência ao voto da população indígena no candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e sugere contaminar a água para provocar mortes.

A gravidade da ameaça é ainda maior diante da realidade enfrentada pelas comunidades, que possuem dificuldades de acesso à água potável e dependem, em determinadas localidades, do abastecimento por caminhões-pipa. Segundo representantes da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), após a circulação do áudio, moradores passaram a temer o consumo da água recebida.

As denúncias também apontam intimidações durante o período eleitoral, com veículos circulando pelos territórios e relatos de agressões que teriam como objetivo provocar medo e dificultar a participação dos indígenas na votação.

A violência não começou nas urnas

Embora os episódios tenham ganhado visibilidade após o resultado eleitoral, organizações indígenas alertam que a violência contra os Guarani Kaiowá não é recente.

O coordenador do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) em Mato Grosso do Sul, Matias Benno Rempel, ressaltou que as ameaças e tentativas de assassinato fazem parte de uma realidade permanente enfrentada pelas comunidades, especialmente em meio aos conflitos territoriais.

O cenário evidencia uma questão que ultrapassa as disputas partidárias: o direito dos povos indígenas de viver em segurança, ocupar seus territórios e exercer livremente sua cidadania.

Governo aciona autoridades para investigar

O Ministério dos Povos Indígenas, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania e o Ministério da Igualdade Racial anunciaram atuação conjunta para apurar as denúncias de violência registradas após o segundo turno.

A Polícia Federal foi acionada para investigar os episódios. O Ministério Público Federal também acompanha as denúncias, incluindo a ameaça de contaminação da água em Tacuru.

As autoridades deverão apurar as circunstâncias das mortes, identificar os responsáveis e verificar possíveis motivações políticas nos ataques.

Democracia para quem?

O episódio levanta uma questão fundamental: de que maneira uma sociedade pode se considerar democrática quando pessoas são ameaçadas ou assassinadas por sua escolha nas urnas?

O voto é um direito individual e protegido pela Constituição. Nenhuma posição política pode justificar perseguições, discriminação ou violência.

Os povos indígenas não podem ser tratados como cidadãos de segunda categoria, nem ter sua segurança condicionada às escolhas eleitorais que fazem.

A democracia não termina quando as urnas são apuradas. Ela também precisa existir no território, nas aldeias e na garantia de que cada cidadão possa escolher livremente sem temer pela própria vida.

Afinal, de que vale o direito ao voto quando o preço de exercê-lo pode ser a própria vida?