Movimentos feministas e organizações da sociedade civil convocaram uma manifestação para esta segunda-feira (21), às 16h, em frente ao Palácio do Campo das Princesas, no Recife. O ato ocorre após a repercussão de um vídeo em que a governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD), aparece sugerindo que uma mulher fosse submetida a uma laqueadura sem saber do procedimento.
A mobilização tem entre as pautas a defesa da autonomia reprodutiva e do direito das mulheres de decidir sobre procedimentos relacionados ao próprio corpo. Diferentes organizações divulgaram a convocação nas redes sociais após o vídeo voltar a circular no domingo (20).
O registro foi feito em 2025, durante uma agenda da governadora no Hospital Regional Dom Moura, em Garanhuns. Na ocasião, Raquel conversa com pessoas que estavam na unidade de saúde sobre uma mulher que estaria grávida do oitavo filho.
Durante o diálogo, a governadora afirma que a mulher deveria ser colocada na fila para uma laqueadura. Após uma fala que não é possível compreender nas imagens, Raquel diz: “Mas faz sem ela saber”.

Autonomia e direitos reprodutivos
Para a servidora pública e bacharel em Ciências Sociais Tatiane Silva, a repercussão do caso envolve questões relacionadas aos direitos reprodutivos e à decisão das mulheres sobre o próprio corpo. Ela afirma que escolher se quer ter filhos, quando engravidar e quais métodos contraceptivos utilizar faz parte desses direitos.
“A realização de procedimentos sem informação adequada ou consentimento representa uma violação dos direitos das mulheres e pode estar relacionada a práticas de violência obstétrica. A fala da governadora também remete a um histórico de esterilização sem consentimento de mulheres pobres, principalmente negras e indígenas, que ocorreu no Brasil entre as décadas de 1970 e 1990”, afirma.
Tatiane também levanta um questionamento sobre possíveis diferenças no tratamento de mulheres de diferentes classes sociais. “Será que a governadora teria o mesmo pensamento diante de uma mulher com a mesma configuração familiar, mas de uma classe social diferente e atendida em um hospital particular de luxo?”, questiona.
“Controlar nosso corpo é diferente de orientar para um melhor planejamento familiar. Por isso, não podemos deixar essa fala passar como algo aceitável, porque isso vai de encontro a todos os avanços que conquistamos em relação aos direitos reprodutivos das mulheres”, conclui.
No caso do vídeo, não há informação de que tenha ocorrido um procedimento sem consentimento, mas a fala reacendeu a discussão sobre a necessidade de garantir que decisões relacionadas à reprodução sejam tomadas pela própria mulher, com informação e acompanhamento adequado.
Lei exige consentimento
A Lei Federal nº 9.263/1996, que regulamenta o planejamento familiar, estabelece que a esterilização cirúrgica deve ser voluntária e depender da manifestação expressa da vontade da pessoa que será submetida ao procedimento.
A legislação também determina que a decisão seja registrada por escrito e que a pessoa receba informações sobre riscos, possíveis efeitos, dificuldades de reversão e alternativas contraceptivas. A realização da esterilização em desacordo com as condições previstas na lei está sujeita a sanções.
Governadora pede desculpas
Após a repercussão do vídeo, Raquel Lyra reconheceu a declaração e pediu desculpas. Em publicação nas redes sociais, afirmou que a fala foi equivocada e que não representa o respeito que tem pelas mulheres.
Nesta segunda-feira (21), durante uma sabatina promovida pelo Sindicato dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios de Pernambuco, no Recife, a governadora voltou a falar sobre o episódio. Segundo informações divulgadas pelo Jornal do Commercio, Raquel afirmou que ficou indignada consigo mesma ao assistir à gravação e pediu desculpas novamente.
O caso também passou a repercutir no debate político de Pernambuco durante o período eleitoral de 2026. Adversários da governadora se manifestaram sobre o conteúdo do vídeo, enquanto organizações e movimentos sociais passaram a mobilizar atos em defesa da autonomia reprodutiva.
A manifestação desta segunda-feira está marcada para às 16h, em frente ao Palácio do Campo das Princesas, sede do Governo de Pernambuco.














