Salvador volta a ser palco de uma das principais celebrações da dramaturgia negra no país com a realização da 8ª edição do Melanina Acentuada Festival, entre os dias 28 de julho e 3 de agosto. Com programação distribuída por teatros e espaços culturais da capital baiana, o festival presta tributo aos 80 anos do Teatro Experimental do Negro (TEN) e reafirma a potência das artes negras na formação cultural brasileira.
Ao longo de sete dias, o público poderá acompanhar 23 atividades culturais, entre espetáculos, stand-up comedy, pocket show, leituras dramáticas, entrevistas públicas, oficinas, ateliês de ideias, compartilhamentos de poéticas e lançamentos de livros. A programação reúne nomes da cena artística da Bahia, do Rio de Janeiro e de São Paulo, em um encontro que coloca a produção negra contemporânea no centro do debate cultural.
Idealizado pelo dramaturgo, ator, diretor e produtor Aldri Anunciação, o Melanina Acentuada nasceu em 2012 com o objetivo de ampliar a visibilidade de autores, artistas e pesquisadores negros. Desde então, consolidou-se como um espaço de criação, formação e circulação da dramaturgia preta, conectando diferentes gerações e fortalecendo a presença de narrativas afro-brasileiras nos palcos.


Nesta edição, o festival homenageia o legado do Teatro Experimental do Negro, criado em 1944 por Abdias do Nascimento, referência histórica no enfrentamento ao racismo nas artes e na luta pelo protagonismo negro no teatro, na literatura, na educação e na política cultural. A proposta é refletir sobre como essa herança segue viva nas produções contemporâneas, atravessando pesquisas, corpos em cena e novas formas de fazer teatro.
“Mais do que uma homenagem, esta edição busca compreender como as ideias inauguradas pelo TEN continuam reverberando nas dramaturgias, nas pesquisas, nos corpos em cena e na organização da produção cultural afrodiaspórica”, destaca Aldri Anunciação.
Programação reúne espetáculos consagrados e novas montagens
Entre os destaques da programação estão o solo “MACACOS”, de Clayton Nascimento, e a celebração dos 15 anos de “Namíbia, Não!”, também de Aldri Anunciação. O festival ainda apresenta cinco novas montagens, incluindo o monólogo “TYBYRA – Uma Tragédia Indígena Brasileira”, de Juão Nyn, e o espetáculo “Black Machine”, além do stand-up “De Férias com Koanza” e do pocket show da banda baiana Cabokaji.
A abertura do festival acontece no dia 28 de julho, no Goethe-Institut Salvador, com a apresentação de “TYBYRA”, às 19h, seguida pelo show da banda Cabokaji, às 20h30. Já no dia 29 de julho, o público poderá assistir a “MACACOS”, no Teatro Sesc Casa do Comércio, e “Candomblé da Barroquinha”, no Teatro Jorge Amado. Na mesma data, o festival recebe Leda Maria Martins para entrevista pública e lançamento do livro A Fina Lâmina da Palavra.
No dia 30 de julho, a programação traz o stand-up “De Férias com Koanza”, no Teatro Jorge Amado, e a última apresentação de “MACACOS” no Sesc Casa do Comércio. Também integra o dia o Ateliê de Ideias 01, com Clayton Nascimento, Daniel Arcades e Sulivã Bispo, debatendo os rastros do Teatro Experimental do Negro na cena contemporânea.
Na sexta-feira, 31 de julho, o festival segue com “Black Machine”, no SESI Rio Vermelho, e “Namíbia, Não!”, no Teatro Sesc Casa do Comércio. O dia também contará com leituras dramáticas e entrevista pública com Luciany Aparecida.
Já em 1º de agosto, o Goethe-Institut recebe o Ateliê de Ideias 02, com Elisa Larkin e Jessé Oliveira, além do lançamento do livro “TEN – Testemunhos e Ressonâncias”. À noite, a programação inclui nova sessão de “Black Machine” e a estreia do espetáculo “Abdias do Nascimento”, com o ator Lincoln Oliveira interpretando o ativista e intelectual negro.
No dia 2 de agosto, o festival realiza o Ateliê de Ideias 03, reunindo Guilherme Diniz e Johayne Hildefonso, além do lançamento do livro “Teatro Experimental do Negro: Histórias, Críticas e Outros Dramas”. O encerramento acontece em 3 de agosto, no Teatro Martim Gonçalves, com os Ateliês de Ideias 04 e 05, em parceria com a Escola de Teatro da UFBA, voltados ao compartilhamento de processos e pesquisas do teatro negro contemporâneo.
Teatro negro, ancestralidade e diálogos afroindígenas
Além de revisitar a história do TEN, a 8ª edição do Melanina Acentuada também amplia seu olhar para as narrativas afroindígenas, aproximando diferentes matrizes da cultura brasileira. Esse diálogo aparece tanto na música da banda Cabokaji quanto em “TYBYRA”, obra que atravessa memória, identidade e resistência a partir de uma perspectiva indígena e dissidente.
A proposta reforça o compromisso do festival em tensionar os limites da cena e da narrativa tradicional, abrindo espaço para dramaturgias que partem da ancestralidade, da experimentação e da imaginação política de povos historicamente atravessados pelo racismo e pelo apagamento.
Cultura negra ocupa a cidade
As atividades acontecem em diferentes pontos de Salvador: Goethe-Institut Salvador, Teatro Sesc Casa do Comércio, Teatro Jorge Amado, Teatro Martim Gonçalves e SESI Rio Vermelho. A descentralização da programação amplia o acesso e transforma a cidade em território de encontro entre artistas, estudantes, pesquisadores e comunidades.
Ao longo de sua trajetória, o Melanina Acentuada já reuniu dezenas de artistas e mais de 40 espetáculos, consolidando-se como uma referência para a dramaturgia negra nacional. Em Salvador, cidade marcada pela força da cultura afro-brasileira e pela presença histórica da população negra, o festival reafirma o teatro como ferramenta de memória, disputa simbólica e produção de futuros.
Todas as atividades do festival são gratuitas, com exceção dos espetáculos, que têm ingressos a R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia). A organização também informa que 5% da lotação dos espaços será destinada à acessibilidade e 10% dos ingressos serão distribuídos gratuitamente para estudantes de escolas estaduais. Os ingressos para os espetáculos podem ser adquiridos pela plataforma Sympla.














