Foto: Divulgação
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Os muros de arrimo que sustentam o Córrego do Sargento, na periferia de Linha do Tiro, Zona Norte do Recife, ganharam novos significados entre os dias 27 de outubro e 2 de novembro. Durante uma semana, o concreto que antes contava histórias silenciosas virou tela de cinema e palco de encontros na Mostra de Cinema Arrimo, projeto gratuito que ocupou o território com arte, memória e pertencimento.

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Idealizada pela produtora e realizadora Ellen Meireles, a Mostra nasce como um gesto de reencantamento com o espaço do morro. “Cresci numa casa em terreno de corte de morro, lá em Linha do Tiro… Uma das minhas lembranças mais vivas é o muro de arrimo do nosso quintal, aquele gigante de pedra e concreto que nos protegia e sustentava os que viviam acima de nós”, relembra Ellen. “A ideia é ressignificar esse símbolo da paisagem dos morros, transformando-o em um espaço de arte, encontro e convivência.”

A ação ocupou o território com oficinas, exibições e trocas coletivas. Durante a semana, moradores de diferentes idades participaram da oficina “Outros Cinemas e o Minuto”, ministrada por Mila Nascimento, Uilma Queiroz e Alexandrehn, onde aprenderam a produzir curtas-metragens com seus próprios celulares. As sete produções resultantes — com até um minuto de duração — foram exibidas no Barreirão, em um cinema ao ar livre que reuniu mais de 100 pessoas no encerramento do projeto.

Para Janaína Guedes, uma das proponentes da mostra, transformar o muro em tela é também um ato político:

“É permitir que as pessoas se reconheçam na tela, que ocupem as ruas e os espaços públicos como lugares de convivência, segurança e cultura. É sobre ampliar as narrativas e afirmar o direito de existir com arte e luz nas periferias”, afirma.

A curadoria assinada por Neco Tabosa reuniu mais de 30 filmes que abordam temas urgentes — território, resistência, tecnologia, violência policial, luto e vida. Produções de várias regiões do país, como as animações “Coisa de Preto” (BA), “Lá na Frente” (PE) e “Medo Monstro”, ganharam novo sentido ao serem projetadas nas paredes das favelas.

“O cinema feito nas bordas da cidade não depende do centro para contar suas próprias histórias”, destaca o curador.

Entre uma projeção e outra, a rua virou praça, e a calçada, plateia. Crianças, vizinhos e realizadores compartilharam o mesmo espaço, sob a luz dos projetores, mostrando que o cinema também nasce das vielas e becos, dos sons do cotidiano e das vozes que insistem em existir.

Mais do que uma mostra, o Cine Arrimo é um gesto coletivo de afirmação: um convite a olhar para o morro não como problema urbano, mas como potência criativa.
Onde antes havia concreto e contenção, agora há cinema, poesia e janelas abertas para outros futuros possíveis.

A Mostra de Cinema Arrimo é uma realização da produtora Arrimo e conta com apoio da Lei Paulo Gustavo, do Governo Federal, por meio da Prefeitura do Recife, em parceria com o Gabinete de Inovação Urbana e o Coletivo Sargenti Perifa.