
Uma menina negra entra no próprio corpo e descobre que, dentro dela, existe um circo. É a partir dessa história que o espetáculo infantojuvenil “Maria Preta ou A incrível história da menina que entrou no seu próprio corpo e descobriu que dentro dela é um circo” chega ao palco do Espaço O Poste, na Boa Vista, área central do Recife. A montagem terá seis apresentações nos dias 7, 8, 14, 15, 21 e 22 de novembro, com entrada gratuita e classificação livre.
Inspirada no livro de mesmo nome, escrito pelo pernambucano Samuel Santos e lançado em 2025, a peça acompanha Maria Preta, uma menina filha de artistas circenses que nasce com um sopro no coração. Durante uma parada cardíaca, ela mergulha em si mesma e encontra um picadeiro habitado por diferentes órgãos do corpo humano.
Rins palhaços, Estômago cozinheiro, Amígdalas equilibristas e Fígado mágico ganham vida em cena. O Coração aparece como o tambor que marca o ritmo da existência da personagem. A narrativa combina teatro, palhaçaria, acrobacia, música ao vivo e referências de matriz africana e ancestral.
A montagem é realizada pelo Grupo O Poste Soluções Luminosas e pelo Núcleo O Postinho, coletivo criado em 2023 para formar jovens das periferias do Recife e da Região Metropolitana. O elenco reúne Cecília Chá, que interpreta Maria Preta, Larissa Lira, Sthe Vieira e Thallis Ítalo. Os artistas também cantam, tocam instrumentos, dançam e assumem diferentes personagens ao longo da apresentação.
“Sabemos por que existe uma história tão potente em ‘Maria Preta’. Temos o protagonismo positivo de colocar uma menina negra como a heroína de sua própria jornada de cura e autodescoberta e a pedagogia afetiva de ensinar as funções biológicas do corpo humano sem parecer uma aula chata de ciências. Trazemos a pauta do acolhimento da enfermidade, por meio da voz e representatividade dessas crianças que lidam com condições crônicas de saúde desde cedo, e a poesia, diante da morte, transforma o momento em quase-morte (a parada cardíaca) e consequentemente passa a ser um sonho vibrante e cheio de vida, ajudando o público infantojuvenil a encarar a fragilidade da vida sem traumas”, destaca Samuel Santos, diretor e autor do espetáculo.
Formação de jovens artistas
Antes de chegar ao palco, o elenco participou de encontros formativos voltados para diferentes linguagens das artes cênicas e referências culturais de Pernambuco e do Nordeste. A preparação incluiu palhaçaria negraíndia e de terreiro, musicalidade e percussão, corpo e acrobacia e preparação vocal.
As atividades foram conduzidas por Raquel Franco, Thúlio Xambá, Rob Silva e Naná Sodré. Durante o processo, os jovens também desenvolveram a trilha sonora da montagem, executada ao vivo com instrumentos como alfaias, pandeiros, bombos e agogôs.
“Para dar vida a esse universo de realismo fantástico, houve encontros formativos que somaram justamente pela diversidade de temas, como encantamento dos brincantes e as referências do Cavalo Marinho para a construção do riso ancestral, preparação musical com elenco criando uma trilha original com alfaias, pandeiros, bombos e agogôs, até porque todo o elenco toca e canta inteiramente ao vivo na cena. Também um treinamento de rolamentos, equilíbrio e acrobacias e toda a atividade de preparação vocal, valorizando os conceitos de voz em movimento e criativa e a potência para a cena”, acrescenta Samuel.
O Núcleo O Postinho trabalha com formação artística a partir de temas como identidade racial, gênero, classe social, pertencimento, representatividade e juventude. A experiência também faz parte da trajetória do grupo na criação de produções voltadas às novas gerações.
Identidade e ancestralidade
A escolha do nome Maria Preta está relacionada a uma provocação histórica atribuída ao cantor e compositor Gilberto Gil sobre o registro de sua filha, Preta Gil. A pergunta “Se registrar Branca, Bianca ou Clara pode, por que não Preta?” é incorporada à concepção da personagem.
“Transformá-la em nome próprio e dar título à obra é um ato de fomento ao pertencimento, à identidade e à dignidade histórica. A existência da personagem colabora para uma quebra fundamental dos estereótipos de vulnerabilidade, além de que Maria Preta vive num território de afeto, arte e imaginação”, explica Samuel.
O livro que deu origem à peça também aborda racismo, identidade, pertencimento, saúde, cultura negra e ancestralidade. A história coloca uma criança negra no centro da narrativa e relaciona essas dimensões à descoberta do próprio corpo.
Retorno ao teatro infantil
Com mais de 37 anos de atuação no teatro pernambucano, Samuel Santos volta à produção infantil depois de 13 anos. Ele assina o texto, a direção e a criação de luz, cenário e figurinos de “Maria Preta”.
Entre os trabalhos anteriores do diretor estão “A Terra dos Meninos Pelados”, de 2002, “O Amor do Galo pela Galinha D’Água”, de 2006, e “Historinhas de Dentro”, de 2008. Em 2013, dirigiu “O Menino da Gaiola”.
“O espetáculo ‘Maria Preta’ chega para coroar essa trajetória coletiva das pessoas que fazem O Poste Soluções Luminosas como a primeira produção totalmente voltada para o público infantil do grupo. Trabalhamos com a ideia do jogo lúdico e das brincadeiras, onde tudo no palco se transforma por meio do encantamento. As cenas são pequenos quadros construídos sem o compromisso com o real, mas guiados pela poesia e pela magia. Teatro é jogo, e jogo é liberdade de ser, ter e zelar”, afirma.
A temporada integra o projeto “Luz negra: o negro em estado de representação”, realizado por meio do Programa Funarte de Apoio a Ações Continuadas 2025 – Teatro, da Fundação Nacional de Artes (Funarte) e do Ministério da Cultura (MinC).
Programação
As apresentações no Espaço O Poste acontecem aos sábados, às 16h, e aos domingos, às 15h. A entrada é gratuita, com classificação indicativa livre e duração de 1h06.
O espaço fica na Rua do Riachuelo, nº 641, no bairro da Boa Vista, no Recife.
Depois da temporada na capital, o espetáculo também será levado a outros territórios de Pernambuco. No dia 27 de novembro, “Maria Preta” será apresentado no Terreiro de Salinas, em São José da Coroa Grande, no Litoral Sul. No dia 29, a montagem chega ao Quilombo Xambá, em Olinda.













