As mudanças no clima não afetam todas as pessoas da mesma forma. Enquanto alguns enxergam no El Niño apenas uma alteração nas previsões meteorológicas, milhares de moradores das favelas cariocas convivem com consequências que vão muito além da variação da temperatura ou da intensidade das chuvas. Nesses territórios, um fenômeno climático natural encontra décadas de desigualdade, ausência de políticas públicas e infraestrutura insuficiente, transformando um evento ambiental em uma questão de justiça social.
O El Niño, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, altera a dinâmica climática em diferentes partes do mundo. No Sudeste brasileiro, seus efeitos costumam estar associados ao aumento das temperaturas e à ocorrência de chuvas mais intensas em determinados períodos. No entanto, o fenômeno não é, por si só, o principal responsável pelos transtornos enfrentados nas favelas. Ele apenas evidencia problemas estruturais que há muito fazem parte da realidade dessas comunidades.
Quando temporais atingem o Rio de Janeiro, encostas ocupadas sem a infraestrutura necessária tornam-se áreas de alto risco para deslizamentos. Canais assoreados e sistemas de drenagem insuficientes favorecem alagamentos que invadem casas, interrompem o funcionamento do comércio local e comprometem a mobilidade dos moradores. Nos períodos de calor extremo, a pouca arborização e a predominância do concreto intensificam a sensação térmica, tornando o ambiente ainda mais hostil, especialmente para crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas.
Esses impactos não podem ser compreendidos apenas como consequências da natureza. Eles são resultado de um processo histórico de ocupação urbana marcado pela exclusão. Durante décadas, as favelas cresceram sem receber investimentos compatíveis com suas necessidades, convivendo com déficits de saneamento, drenagem, contenção de encostas e planejamento urbano. Assim, enquanto uma chuva forte representa um transtorno em alguns bairros, em outros ela pode significar a perda da casa, dos bens materiais e, em situações mais graves, da própria vida.
A crise climática torna esse cenário ainda mais preocupante. Cientistas alertam que eventos extremos tendem a se tornar mais frequentes e intensos nas próximas décadas. Isso significa que episódios associados ao El Niño ou a outros fenômenos climáticos encontrarão cidades que ainda não estão preparadas para proteger suas populações mais vulneráveis. Ignorar essa realidade significa aceitar que os efeitos do clima continuarão recaindo de forma desproporcional sobre quem historicamente já enfrenta as maiores dificuldades.
Mas seria um erro retratar as favelas apenas como espaços de vulnerabilidade. São nesses territórios que surgem iniciativas comunitárias capazes de reduzir impactos ambientais, promover educação climática e fortalecer redes de solidariedade. Mutirões de limpeza, projetos de reflorestamento, hortas urbanas, brigadas comunitárias e ações de monitoramento mostram que os moradores não esperam passivamente pelas soluções: eles constroem respostas diariamente, muitas vezes suprindo a ausência do poder público.
Essas iniciativas, no entanto, não podem substituir a responsabilidade do Estado. Adaptar as cidades às mudanças climáticas exige investimentos consistentes em drenagem urbana, contenção de encostas, recuperação ambiental, saneamento básico, habitação segura e sistemas eficientes de monitoramento e alerta. Mais do que obras de engenharia, trata-se de reconhecer que o direito à segurança climática deve alcançar todos os cidadãos, independentemente do CEP onde vivem.
O El Niño vai passar, como tantos outros fenômenos naturais passaram. O que permanecerá, se nada for feito, serão as desigualdades que transformam cada evento climático em uma tragédia anunciada para milhares de famílias. Por isso, discutir os impactos do El Niño nas favelas cariocas é, acima de tudo, discutir o modelo de cidade que queremos construir. Uma cidade preparada para enfrentar a crise climática precisa começar por aqueles que, historicamente, sempre estiveram na linha de frente de seus efeitos.














