Foto: Reprodução
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Durante muitos anos, a jaca foi uma fruta abundante nos quintais e propriedades rurais da Chapada Diamantina, mas grande parte da produção acabava sem aproveitamento comercial. Em Seabra, um empreendimento decidiu enxergar potencial onde muitos viam desperdício e transformou a fruta em matéria-prima para uma linha de produtos que hoje movimenta a economia local e valoriza saberes tradicionais da região. 

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A história da agroindústria Gosto da Chapada começou em 2015, a partir de uma experiência que despertou a curiosidade de um casal de empreendedores. Segundo Patrícia Ladeia Soares, tudo teve início quando seu companheiro, Elder do Espírito Santo Cardoso, experimentou um pastel de carne de jaca durante um passeio na região da Cachoeira da Fumaça, em Lençóis. 

“Ele chegou contando sobre a experiência e aquilo chamou nossa atenção. Já conhecíamos a fruta, mas nunca tínhamos visto a jaca sendo utilizada daquela forma”, relatou. 

A partir desse contato, o casal passou a pesquisar novas possibilidades de aproveitamento da fruta e decidiu adaptar o restaurante que administrava na época para um modelo voltado à culinária vegana. A proposta era utilizar ingredientes ligados à identidade regional e explorar o potencial gastronômico da jaca. 

Segundo Soares, o processo exigiu pesquisa e aprendizado junto aos moradores mais antigos da região. “Fui atrás dos nativos para aprender a trabalhar com o que eles chamam de palmito de jaca. Esse conhecimento foi fundamental para desenvolvermos nossa própria técnica de preparo”, afirmou. 

O resultado foi a criação de um cardápio com mais de doze pratos produzidos a partir da carne de jaca. Com o aumento da procura pelos produtos, o negócio passou a comercializar porções congeladas para os clientes levarem para casa, dando origem ao que mais tarde se tornaria a agroindústria Gosto da Chapada. 

Atualmente, a empresa trabalha exclusivamente com o beneficiamento da fruta. Entre os principais produtos estão a carne de jaca desfiada pré-cozida, comercializada em embalagens de 500 gramas e um quilo, além dos hambúrgueres vegetais Jack Burger e Vegetal Burger. 

Hambúrguer produzido pela empresa Gosto da Chapada a partir da carne de jaca. Foto: Reprodução/Instagram Gosto da Chapada 

A empresa também desenvolveu outros derivados da fruta, como kombucha, iogurte produzido a partir do caroço da jaca e uma versão desidratada da carne de jaca, criada para facilitar o transporte e ampliar o alcance dos produtos para outros mercados. 

Geração de renda e valorização local 

Além da inovação gastronômica, a iniciativa também abriu novas oportunidades para agricultores familiares e moradores da região. 

Segundo Soares, antes da criação do empreendimento, muitas frutas eram desperdiçadas por falta de compradores. 

“A gente passou a comprar jaca de agricultores familiares e de pessoas da comunidade que antes não tinham para quem vender. O que era desperdício passou a gerar renda para quem vive no campo”, disse. 

Ela destaca ainda que o projeto ajudou a valorizar conhecimentos tradicionais que, em muitos casos, estavam restritos ao ambiente doméstico. 

“Aprendi a trabalhar com a carne de jaca com pessoas da própria região. Era um conhecimento que existia, mas que não era visto como oportunidade econômica. Hoje ele faz parte da identidade dos nossos produtos”, afirmou. 

Para a empresária, a valorização da fruta também contribui para fortalecer a identidade da Chapada Diamantina. 

“A jaca passou a representar um pouco da nossa região. Quando alguém experimenta um dos produtos, também conhece parte da nossa cultura e da nossa história”, ressaltou. 

Desafios do pioneirismo 

Apesar do crescimento do negócio, o caminho foi marcado por desafios. Um dos principais foi conquistar a confiança dos consumidores. “Muita gente tinha preconceito com a jaca ou não conseguia imaginar a fruta sendo utilizada em pratos salgados. Foi preciso apresentar o produto e mostrar suas possibilidades”, contou. 

Outro obstáculo foi desenvolver técnicas que permitissem transformar a fruta em produtos padronizados e com qualidade adequada para comercialização. 

Além disso, questões relacionadas à formalização da agroindústria, obtenção de certificações e investimentos em equipamentos também fizeram parte da trajetória da empresa. 

Experiência de quem consome 

Entre os consumidores, a principal surpresa costuma estar relacionada à textura e à versatilidade da carne de jaca. 

O professor do curso de Jornalismo da UNEB (Universidade do Estado da Bahia) Seabra, Rafael Carvalho afirma que a experiência foi diferente do que imaginava. “O que mais me chamou a atenção foi a textura. Quando a gente pensa na jaca fruta, imagina algo mais fiapudo. Mas a carne de jaca tem uma textura muito boa de mastigar, mais macia e até mais sofisticada”. 

Segundo Carvalho, outro aspecto que o surpreendeu foi o uso da fruta em preparações salgadas. “A gente imagina que ela funcionaria melhor em comidas doces, mas nas receitas salgadas ela funciona muito bem”. 

Para ele, a carne de jaca deve ser vista como um alimento com características próprias. “Eu não gosto de pensar nela como substituta da carne animal. Gosto de pensar como uma opção natural, um alimento por si só. Acho que ainda existe certo preconceito com produtos vegetais, mas ela tem valor próprio”, 

Potencial para a Chapada 

Para Soares, a Chapada Diamantina possui condições favoráveis para ampliar o aproveitamento econômico da fruta. 

Segundo ela, a jaca está presente em grande quantidade na região e pode se transformar em produtos de maior valor agregado, gerando emprego, renda e oportunidades para agricultores familiares. 

“A fruta está aqui, faz parte da nossa realidade e tem potencial para movimentar a economia local. O desafio agora é ampliar a logística e fortalecer essa cadeia produtiva para que mais pessoas possam participar dela”, afirmou. 

Com planos de expansão e desenvolvimento de novos produtos, a Gosto da Chapada aposta na valorização de uma fruta tradicional da região como estratégia para unir inovação, sustentabilidade e geração de renda na Chapada Diamantina.