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Na rotina de muitas famílias brasileiras, em meio à sobrecarga de trabalho, à falta de rede de apoio e à dificuldade de acesso a creches, lazer e atividades culturais, as telas acabam se tornando uma alternativa para pais e responsáveis que precisam conciliar cuidado e sobrevivência. A ausência de suporte faz com que o celular ou a televisão sejam utilizados como ferramentas de apoio na rotina familiar.

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Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), crianças menores de dois anos não devem ser expostas às telas. Já para crianças entre 2 e 5 anos, a recomendação é limitar o uso a, no máximo, uma hora por dia, sempre com supervisão. Para crianças de 6 a 10 anos, o tempo de exposição deve ser restrito a até duas horas diárias.

A estudante de Fonoaudiologia Isabel Santos explica que o uso excessivo das telas pode impactar diretamente o desenvolvimento infantil, principalmente na fala, socialização e atenção.

“Além de dificultar o desenvolvimento, o contato excessivo com alguns desenhos pode gerar estímulos negativos, principalmente quando há excesso de cenas muito aceleradas, gritos constantes, mudanças rápidas de imagem ou comportamentos agressivos apresentados como humor. Esses estímulos podem dificultar a concentração, aumentar a irritabilidade e estimular comportamentos impulsivos”, complementa Santos.

Uma pesquisa da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, em parceria com o Datafolha, mostrou que 78% das crianças de 0 a 3 anos estão expostas diariamente às telas. Entre crianças de 4 a 6 anos, o número chega a 94%.

Falta de apoio amplia uso de telas na infância

Em entrevista, uma mãe relata que a dificuldade para conseguir vaga em creche e a falta de opções de lazer na região acabaram transformando o celular em uma solução cotidiana. Segundo ela, muitas vezes o uso das telas acontece por necessidade.

“Na creche só tem 20 vagas para crianças de 3 anos, mas não existem apenas 20 crianças dessa idade na cidade. Tem dias em que a gente precisa trabalhar e resolver as coisas. O celular acaba distraindo e auxiliando a criança. É a opção que temos”, afirma.

Dados do Censo Escolar 2025 mostram que o acesso à creche no Brasil alcançou 41,8% das crianças de 0 a 3 anos, o maior índice já registrado. Ainda assim, o número segue abaixo da meta de 50% prevista no Plano Nacional de Educação (PNE), e a falta de vagas continua sendo uma realidade para muitas famílias.

A experiência da mãe Ingred Rocha mostra como a oferta de atividades pode melhorar a relação das crianças com as telas. Segundo ela, a filha apresentou melhora significativa após começar a participar de outras atividades no dia a dia, reduzindo o tempo de exposição ao celular.

“Ela passou a se comunicar melhor, se concentrar nas atividades e ficar cada vez menos estressada”, relata Rocha.

O debate sobre os prejuízos do uso excessivo de telas na infância também precisa ampliar a discussão sobre direito à cidade, acesso à cultura, educação e suporte às famílias que enfrentam jornadas exaustivas de trabalho e cuidado, principalmente entre trabalhadores submetidos à escala 6×1.