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O Brasil convive com uma tragédia permanente que, se fosse tratada com a gravidade necessária, já teria provocado uma comoção nacional capaz de reconfigurar políticas públicas e prioridades institucionais.

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Em 2025, mais de 1.248 homens assassinaram mulheres no país. Ao todo, 1.568 mulheres foram mortas. A estatística, por si só brutal, revela contornos ainda mais alarmantes: 62,6% das vítimas eram mulheres negras e 66,3% foram assassinadas dentro de casa.

O espaço que deveria representar proteção segue sendo, para muitas, um território de risco. Em vez de abrigo, a casa se transforma em cenário de controle, violência e, no limite, execução.

Mas o feminicídio não começa no ato final. Ele é o desfecho de uma sequência cotidiana de agressões: humilhações, ameaças, perseguições, controle financeiro e violência psicológica e física. É uma escalada.

Nos últimos anos, essa escalada ganhou um novo território: o ambiente digital.

A internet brasileira, especialmente nas redes sociais, tornou-se um espaço de circulação de conteúdos que normalizam — e, muitas vezes, incentivam — o ódio contra mulheres. Vídeos que ridicularizam denúncias, estimulam o controle masculino e difundem teorias sobre uma suposta “ameaça feminina” passaram a integrar o cotidiano dos algoritmos.

Não se trata de humor ou opinião.
Trata-se de uma pedagogia da misoginia.

A lógica é progressiva: primeiro se ridiculariza, depois se desumaniza e, por fim, se naturaliza a violência.

Essa cultura digital cria um ambiente simbólico em que agredir mulheres passa a parecer justificável. O que circula como meme ou entretenimento funciona, muitas vezes, como combustível para violências concretas.

A violência simbólica abre caminho para a violência real.

É impossível dissociar esse cenário do avanço dos feminicídios no país. Quando mulheres são tratadas como inimigas ou ameaças sociais, o terreno para a brutalidade já está preparado.

O feminicídio, portanto, não é apenas um crime individual. É a expressão extrema de uma cultura que legitima a dominação masculina — e que se reproduz com ainda mais intensidade nas periferias, onde desigualdades históricas ampliam a vulnerabilidade.

O dado de que quase dois terços das vítimas são mulheres negras evidencia o cruzamento entre racismo, desigualdade econômica e violência de gênero. Nas periferias urbanas, a presença do Estado muitas vezes se limita ao aparato policial, enquanto a proteção social é insuficiente.

Quando a violência acontece, a resposta chega tarde — ou simplesmente não chega.

Essa negligência revela um paradoxo: um país que se afirma como democracia ainda falha em garantir o direito básico à vida para milhões de mulheres, especialmente nas periferias.

Há um pacto silencioso que sustenta essa realidade. Ele começa na banalização das agressões verbais, passa pela tolerância a relações abusivas e se consolida na incapacidade institucional de proteger quem denuncia.

Denunciar, hoje, ainda é um ato de coragem solitária.
E só faz sentido quando há proteção efetiva.

Sem isso, o sistema apenas registra a tragédia antes que ela aconteça.

Enquanto isso, no ambiente digital, influenciadores acumulam seguidores ao ensinar homens a “retomar o controle” ou tratar mulheres como adversárias. Essa retórica não é inofensiva.

Ela organiza ressentimentos — e ressentimentos organizados produzem violência.

O enfrentamento ao feminicídio exige mais do que endurecimento penal. É necessário investir em políticas públicas de proteção, responsabilizar plataformas digitais e romper com a ideia de que a violência doméstica é um problema privado.

Não é.
É uma questão política, social e civilizatória.

Uma sociedade que naturaliza o assassinato de mulheres, especialmente nas favelas e periferias, não enfrenta um desvio. Enfrenta um fracasso coletivo.

Enquanto a misoginia seguir sendo tratada como entretenimento e a violência doméstica continuar sendo relativizada, o Brasil seguirá acumulando números — e vidas interrompidas.E cada novo dado não será apenas estatística.
Será mais uma evidência de uma violência que o país ainda insiste em normalizar.