O artista visual e pesquisador Davi Nascimento lança Aluvião, seu primeiro livro, reunindo escritos que atravessam o Rio São Francisco, a memória familiar e a experiência da perda. Natural de Pirapora (MG), Davi constrói uma obra marcada pela relação com o território barranqueiro, pelas fotografias herdadas de seu bisavô e por uma pesquisa artística que mistura imagem, palavra, instalação e arquivo.
Nesta entrevista, ele fala sobre o livro, sua trajetória, o rio como origem e destino, e o que significa levar esse trabalho para espaços como Inhotim sem perder o vínculo com a própria história.
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O livro Aluvião nasce de onde?
“Aluvião é tipo o resto de enchente, o que sobra depois da água baixar. Galho, pedra, resto de casa, resto de corpo mesmo. O que fica depois de uma enxurrada. O livro nasce muito disso. Eu sempre escrevi de forma despretensiosa, poesia mesmo, e esses textos iam se acumulando: viravam legenda de Instagram, título de trabalho, anotação solta. Em algum momento eu percebi que tinha um corpo ali.”
“O livro surgiu também porque eu queria fazer uma homenagem pra minha mãe. Quando fez doze anos que ela morreu, eu senti que era o momento. Ela morreu afogada, em 2013, então o rio atravessa tudo. Aluvião é dedicado a ela.”
O rio aparece como memória pessoal, mas também como história coletiva?
“Total. Minha família sempre viveu o rio por dentro. Meu pai é pescador, marceneiro, faz barco. Minha mãe pescava com ele. A gente navegava rio adentro, não só na beira da cidade. É uma experiência diferente do rio, sem cidade, só água, margem, ilha.”
“Isso mistura tudo: memória, território, corpo, perda. O livro tem essa mixidão mesmo. Pirapora, o São Francisco, a história da minha família, mas também uma história coletiva, barranqueira.”
As fotografias do livro vêm desse arquivo familiar?
“Sim. Meu bisavô, João das Queimadas, era vaporeiro. Trabalhou nos vapores do São Francisco e gostava muito de fotografar. Tem fotos dele, da enchente de 1979 em Pirapora, quando o rio tomou os bairros baixos e a cidade começou a crescer pros lugares altos.”
“Eu sempre cuidei desse acervo da minha família. Depois, com a Bolsa ZUM do IMS, comecei a ampliar isso pra uma pesquisa de acervos barranqueiros, não só da minha família, mas da comunidade inteira. Digitalizar, cuidar, preservar. Fotografia sempre foi cara, principalmente pra famílias pobres e famílias pretas. Quem fez foto, fez porque deu um jeito.”
Seu trabalho sempre volta para Pirapora e para o Norte de Minas. Isso é uma escolha consciente?
“Não tem como fugir. Se eu tiro o Norte de Minas, se tiro o São Francisco, se tiro tudo isso do meu trabalho, ele simplesmente não existe. É de onde eu venho e é o que eu quero falar.”
“Eu sempre soube que ia ser artista, mas nunca imaginei que ia levar meu trabalho pra tantos lugares, viver disso. No interior, falar que vai ser artista é quase loucura. Não tem referência. Quando eu mudei pra Belo Horizonte, comecei a entender que arte não era só desenho e pintura. Tinha performance, instalação, outras possibilidades.”
O lançamento do livro dialoga com essa fase?
“Totalmente. Aluvião não é separado do meu trabalho visual. É a mesma investigação, só em outra linguagem. Pirapora, o rio, a memória, o corpo, a perda. Isso vai me acompanhar a vida inteira, eu acho.”
“O livro vai ser lançado junto de exposições, vai circular, mas ele nasce desse lugar íntimo. É um gesto de cuidado com o que sobra, com o que resiste depois da enchente.”














