Mais do que um dos maiores símbolos da música percussiva brasileira, o Olodum celebra 47 anos reafirmando seu papel como agente de transformação social nas favelas e periferias de Salvador. O aniversário da instituição chega acompanhado de novos projetos que fortalecem sua trajetória rumo ao meio século de resistência, cultura e valorização da ancestralidade negra na Bahia.
As novidades foram apresentadas na manhã desta sexta-feira, durante coletiva realizada na Casa do Olodum, no Pelourinho. Participaram do encontro os presidentes Marcelo Gentil e Jorginho Rodrigues, os cantores Lucas Di Fiori e Lazinho, o percussionista Bira Jackson e João Jorge, presidente da Fundação Cultural Palmares, ex-presidente e atual conselheiro da entidade.
Fundada em 1991, a Casa do Olodum carrega uma estética marcada por referências ao Egito antigo, reafirmando a conexão com a ancestralidade africana. O espaço também reúne imagens de personalidades negras que marcaram a luta contra o racismo, funcionando como um território simbólico de memória e identidade.
Educação e fortalecimento das periferias
Para além dos palcos, o Olodum segue investindo em educação como ferramenta de emancipação nas periferias. Durante o evento, a diretoria anunciou o relançamento das cartilhas do Kit Revoltas Negras, material pedagógico que resgata episódios fundamentais da história brasileira, como a Revolta dos Búzios, a Revolta dos Malês, a Revolta da Chibata e a trajetória de Zumbi dos Palmares.
Voltado principalmente para crianças e jovens de favela, o conteúdo busca preencher lacunas deixadas pelo ensino formal e fortalecer o conhecimento sobre a história negra no Brasil. Um novo kit educativo, direcionado ao ambiente escolar, também foi apresentado. A proposta é clara: conhecimento como instrumento de empoderamento.
Agenda cultural e novos projetos
A programação anunciada para o próximo período inclui uma série de iniciativas que ampliam a atuação do grupo. Entre os destaques estão a participação no Rock in Rio, a ação Torcida Brasil Olodum durante a Copa do Mundo, a criação do Estúdio Fela Kuti — voltado à produção audiovisual —, além do Panafro Femadum, da retomada da turnê internacional e da produção de um documentário e um filme sobre a trajetória da instituição.

Carnaval e ancestralidade como guia
Um dos momentos mais aguardados foi o anúncio do tema do Olodum para o Carnaval de 2027: “Sirius Cão Maior – O mistério das estrelas”. Segundo Marcelo Gentil, o enredo mantém a tradição da banda de dialogar com a ancestralidade africana, especialmente com referências ao Egito, sem repetir narrativas.
A proposta deste ano abordará os conhecimentos astronômicos do povo Dogon, do continente africano, conhecido por seu domínio sobre sistemas estelares. “Vamos contar a relação dos Dogons com o sistema interestelar, um saber ancestral que só recentemente passou a ser reconhecido pela ciência”, explicou Gentil.
João Jorge reforçou a centralidade do Egito na construção simbólica do Olodum: “O Egito é um tema permanente porque representa a base da civilização africana, da qual todos nós descendemos”.
Mulheres em destaque
Como parte das comemorações, o Troféu Ujaama 2026 será dedicado exclusivamente às mulheres. A homenagem reconhece o papel feminino na construção social, política e cultural, especialmente na valorização da identidade negra nas periferias.
“Essas mulheres, independentemente de cor ou etnia, têm contribuído diariamente para o fortalecimento da autoestima e da identidade do nosso povo”, destacou Marcelo Gentil.
Uma história que vem de longe
Ao revisitar a trajetória do Olodum, João Jorge ressaltou que a história da instituição não começa em 1979, mas remonta às lutas ancestrais do povo negro no Brasil. “Essa história começa com os nossos ancestrais, como na Revolta dos Búzios”, afirmou.
Reconhecido internacionalmente, o Olodum segue como um dos principais símbolos da cultura negra fora do continente africano. “O Olodum é uma pequena estrela dentro da constelação da maior negritude fora da África, que é Salvador”, concluiu.














