O Carnaval do Nordeste de Amaralina, uma das festas mais emblemáticas da periferia de Salvador, começou na última quarta-feira (11) com apresentação do Olodum. Realizado no tradicional Circuito Mestre Bimba, o evento segue até a Quarta-feira de Cinzas (18) e integra oficialmente a programação do Carnaval da Bahia 2026.
Mais do que folia, o Carnaval na favela é território de resistência cultural, geração de renda e fortalecimento comunitário. Em um bairro historicamente marcado por desafios sociais, a festa reafirma o protagonismo da periferia na construção da identidade cultural da capital baiana.
Durante a abertura, o vice-governador e coordenador geral do Carnaval da Bahia 2026, Geraldo Júnior, destacou a importância do investimento público nos circuitos descentralizados. Segundo ele, o fortalecimento do Carnaval nos bairros garante estrutura, segurança e oportunidades diretas para a população local.
Desde 2004, o circuito reúne três mini trios, 102 agremiações e cerca de 12 atrações apoiadas pela Superintendência de Fomento ao Turismo (Sufotur), vinculada à Secretaria de Turismo do Estado (Setur-BA). O modelo reforça uma estratégia que vai além da festa nos grandes cartões-postais da cidade: leva recursos, visibilidade e dignidade para a favela.
Economia que nasce na rua
Nas periferias, Carnaval também é trabalho. Ambulantes, catadores, costureiras, músicos e pequenos comerciantes encontram na festa uma das principais oportunidades de renda do ano.
A Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social (Seades) realiza ações de segurança alimentar e redução de danos por meio do projeto Corra pro Abraço, voltado especialmente para trabalhadores informais e populações em situação de vulnerabilidade.
Para o comerciante Raphael Harrison, a festa perto de casa faz toda a diferença. “Aqui todo mundo se conhece. É perto, é seguro e fortalece a comunidade”, afirmou.
O vendedor Joelson da Silva reforça que o trabalho na periferia tem o mesmo empenho dos grandes circuitos. “A gente trabalha igual como se fosse na Barra e na Avenida. Quero boas vendas para todos os ambulantes. O Carnaval do Nordeste é o melhor da Bahia”, declarou.
Estrutura e segurança na periferia
Pela primeira vez, o bairro recebe um Posto Avançado de Atendimento ao Turista, com 20 agentes e um guia de turismo, garantindo acolhimento a moradores e visitantes. A segurança conta com 46 policiais militares, além de câmeras de videomonitoramento com reconhecimento facial e plataformas elevadas de observação.
A presença do Estado nos bairros populares simboliza um avanço importante: assegurar que a população da favela tenha acesso à mesma estrutura oferecida nos circuitos mais centrais da cidade.
Brokinho da Olaria: tradição, afeto e solidariedade
Entre as expressões mais autênticas do Carnaval do Nordeste está o Brokinho da Olaria. Há nove anos, o bloco arrasta foliões pelo Circuito Mestre Bimba ao som de marchinhas, instrumentos de sopro e percussão, fortalecendo laços comunitários.
Criado por um grupo de amigos como alternativa à tradicional Mudança do Garcia, o Brokinho se transformou em símbolo afetivo da comunidade.
Neste ano, o personagem Pierrot foi o tema das fantasias. A concentração aconteceu no Largo da Olaria, reunindo moradores antigos, crianças e visitantes. Um dos momentos mais marcantes do cortejo é a parada em frente ao Abrigo São José, onde os foliões realizam doação de alimentos e materiais de limpeza arrecadados previamente.
“O desfile foi um sucesso. Destaco especialmente a ação social do Brokinho com a entrega de alimentos aos idosos. Fizemos também um baile com músicas antigas de Carnaval. Foi emocionante”, afirmou Diogenes Machado, o Xhina, um dos fundadores do bloco.
Favela como centro da cultura
O Carnaval do Nordeste de Amaralina mostra que a favela não é margem da festa: é origem, é tambor que marca o compasso da cidade. Enquanto trios elétricos ecoam nos grandes circuitos turísticos, é na periferia que o Carnaval preserva memórias, constrói solidariedade e distribui renda de forma direta.A manifestação cultural reafirma que investir nas periferias é fortalecer a cultura popular, reduzir desigualdades e reconhecer que a potência do Carnaval da Bahia nasce, pulsa e resiste nas comunidades.














