O Bairro da Paz, uma das grandes periferias de Salvador, foi palco de um momento histórico no último domingo (30). O Grupo Anjos de Angola nomeou Simone Silva de Oliveira como sua primeira Mestra de Capoeira, dentro da tradição da capoeira Angola. O batizado e a celebração aconteceram no espaço socioeducativo Avançar, reforçando a força da comunidade e da cultura ancestral nas favelas e territórios populares da capital baiana.
Natural da Chapada do Candeal, Simone iniciou sua trajetória na capoeira ainda aos 13 anos, na década de 1990. Três décadas depois, recebeu das mãos do mestre Zé Banguê o cordão que simboliza não só uma conquista pessoal, mas um marco para as mulheres que resistem, persistem e mantêm viva a tradição da capoeira nas favelas e periferias.
Emocionada, Simone destacou a importância de assumir esse lugar de liderança e referência para outras meninas e mulheres que seguem no caminho da capoeira Angola.
“Eu resisti por muitas vezes em aceitar a ideia de me tornar mestra, mas exercendo o trabalho voluntário com crianças consegui aceitar minha vocação. Transformei o medo em determinação para encorajar outras jovens que estão prestes a trilhar o mesmo caminho. Depois de mim, virão outras mulheres. É só o começo. Vocês ainda ouvirão muito o meu nome”, afirmou.
O mestre Morcego, integrante do Grupo Anjos de Angola, também celebrou o feito e reforçou a importância da representatividade feminina dentro de uma tradição historicamente marcada pelo protagonismo masculino:
“Para mim é muito importante que as meninas e mulheres da capoeira percebam que também podem ser mestras. Elas podem e devem ocupar espaços que antes eram restritos aos homens.”
O evento reuniu familiares, amigos, mestres, professores de diferentes regiões, representantes da comunidade e o presidente da Associação do Grupo Anjos de Angola, Amâncio Lopes. Além da nomeação de Simone, o encontro marcou a entrega de cordas para outros alunos e celebrou os 50 anos do Grupo Anjos de Angola, fundado pelo mestre Paulo dos Anjos — um pilar da capoeira na Bahia e nas periferias do país.
A conquista de Simone ecoa para além da roda: é símbolo de fortalecimento das mulheres negras, das culturas afro-brasileiras e das resistências que nascem e florescem nas favelas
Créditos: Van Kênia














