A Chapada Diamantina, localizada no interior da Bahia, é um dos principais destinos turísticos do estado, conhecida pelas paisagens naturais, trilhas e cachoeiras que atraem visitantes de diversas regiões do país. No entanto, para além da imagem de “paraíso” frequentemente associada ao destino, moradores de comunidades locais relatam que os impactos econômicos do turismo nem sempre são distribuídos de forma igualitária.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística indicam que o turismo na Bahia tem apresentado crescimento acima da média nacional. No primeiro quadrimestre de 2024, o volume de atividades turísticas no estado avançou 12%, enquanto a média do país foi de 1,4%. No mesmo período, a receita do setor turístico baiano cresceu 22%, frente a 9,7% no Brasil.
Informações da Secretaria de Turismo do Estado da Bahia também apontam aumento na circulação de visitantes. Entre janeiro e abril de 2024, o fluxo de passageiros nos aeroportos baianos cresceu 4,7% em relação ao mesmo período de 2019, antes da pandemia. Já o movimento em rodovias teve alta de 8,4%, segundo dados de praças de pedágio.
Além disso, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, realizada pelo IBGE em parceria com o Ministério do Turismo, aponta que a Bahia recebeu 1,8 milhão de viagens domésticas em 2023, movimentando cerca de R$ 4,6 bilhões na economia estadual.
Em municípios como Seabra, Lençóis e Palmeiras, a atividade turística movimenta setores como hospedagem, alimentação e serviços de guia. Ainda assim, parte da população afirma que enfrenta dificuldades para participar diretamente desse crescimento.
Comunidades relatam pouca participação nos ganhos
Moradores ouvidos pela reportagem apontam que, apesar do aumento do fluxo turístico, os benefícios financeiros tendem a se concentrar em determinados grupos ou empreendimentos.
Uma jovem moradora de Palmeiras, que preferiu não se identificar, relata que a presença do turismo nem sempre se reflete na realidade das comunidades. “A gente vê a cidade cheia de turistas em certos períodos, mas isso não muda muita coisa no dia a dia de quem mora aqui. Nem todo mundo consegue ganhar com isso”, afirma.
Outro jovem, morador de Andaraí, também observa um distanciamento entre o turismo e a população local. “Existe um movimento grande por causa do turismo, mas muitas vezes ele fica mais concentrado em áreas específicas. Quem não está diretamente nesses espaços acaba ficando de fora”, relata.
Economia cresce, mas renda é concentrada
A guia nativa de Lençóis, Elaine Moreira, que também atua no setor, relata que, embora o turismo tenha impacto econômico relevante, os benefícios não chegam de forma igual para todos.
“Na minha experiência, o turismo na Chapada Diamantina tem um impacto muito importante e movimenta bastante a economia da região, mas não acredito que esses benefícios cheguem de forma justa para quem mora aqui, especialmente para a população nativa. Grande parte dos lucros e das melhores oportunidades costuma ficar concentrada nas mãos de pessoas de fora, enquanto muitos moradores locais acabam ocupando postos de trabalho mais precários em pousadas, restaurantes e agências de turismo, muitas vezes com baixos salários, pouca estabilidade e, em alguns casos, sem direitos trabalhistas respeitados”.
A diferença entre a imagem turística e a vivência dos moradores também é destacada pela guia. “Esse é um lado que muitas vezes não aparece para quem visita a cidade por poucos dias. Para o turista, o centro costuma parecer bonito, organizado e acolhedor, mas quando olhamos para os bairros onde vivem os moradores, ainda existem carências antigas e pouca atenção do poder público em áreas essenciais. Em muitos momentos, parece que os investimentos priorizam mais a imagem da cidade para receber visitantes do que a qualidade de vida de quem vive aqui o ano inteiro”.
Outro fator apontado é a sazonalidade do turismo, que impacta diretamente a renda de trabalhadores e empreendedores locais. “ Eu mesma tenho pousada e trabalho como guia, então sinto isso de perto. Na alta temporada existe movimento e oportunidade, mas na baixa temporada vem a insegurança financeira e a incerteza para muitos trabalhadores e empreendedores locais”.
Além das questões econômicas, a guia também chama atenção para aspectos relacionados à gestão e à sustentabilidade da atividade. “Em relação à coleta de lixo, por exemplo, considero que funciona de forma satisfatória, mas ainda falta incentivo a um turismo mais consciente, com maior responsabilidade ambiental e social, além de ações que fortaleçam quem é da própria região”.
Apesar dos desafios, Moreira destaca que o turismo pode ser uma ferramenta importante para o desenvolvimento da região, desde que haja maior equilíbrio na distribuição dos benefícios.
“De forma geral, acredito que o turismo é uma ferramenta poderosa de desenvolvimento para a Chapada, mas que precisa ser planejado e distribuído de forma mais justa para beneficiar cada vez mais as comunidades da região, focando principalmente nas pessoas nativas”.
A Chapada Diamantina segue como um dos principais destinos turísticos do estado e apresenta grande potencial econômico. No entanto, os relatos mostram que ainda existem desafios relacionados à distribuição de renda e à inclusão das comunidades locais no desenvolvimento da atividade turística.














