A cena cultural que nasce nas periferias e favelas do Brasil sempre encontrou caminhos para atravessar fronteiras. Agora, essa travessia ganha nova força com a 4ª temporada da série Diaspóricas, obra audiovisual criada no Centro-Oeste e que inicia seu processo de internacionalização em Cabo Verde. O projeto, que já movimenta debates sobre memória, ancestralidade e o protagonismo de mulheres negras na música e no cinema, amplia sua geografia afetiva e política ao fincar os pés no continente-mãe.
Idealizadora e diretora da série, Ana Clara Gomes descreve essa viagem como um retorno necessário para quem vive a experiência diaspórica. Segundo ela, atravessar o oceano é mais que deslocamento físico. É um ritual de reencontro. “A gente atravessa o Atlântico na expectativa de encontros que são, na verdade, experiências de retorno. O encontro com nós mesmas, com memórias que nos foram roubadas, com filosofias e formas de viver o mundo que fazem parte da nossa história”, diz.
Guiada pelo tema “Oralituras”, a nova temporada se dedica às tradições orais que sustentam a memória africana e reverberam na criação das artistas da diáspora. A equipe filmou em Praia, Cidade Velha e Tarrafal, registrando encontros com cantoras de grande expressão no país, como Zul Alves, Fattú Djakité e Kady.
Zul, artista da capital cabo-verdiana, recebeu a equipe com sua estética singular, que mistura modernidade e raiz. Conhecida por unir ritmos da tradição cabo-verdiana a novas tendências, ela se define como “tradicional moderna”, criando pontes entre passado, presente e futuro. “Ver um grupo de brasileiros viajarem por Cabo Verde para documentar histórias de mulheres negras artistas me tocou profundamente. Foi um momento de partilha, onde pude refletir sobre a minha história e reafirmar o sentido do que faço como mulher, artista negra e cabo-verdiana”, afirma.
A temporada também registra o encontro da cantora brasileira Nara Couto com o grupo de batucadeiras Delta Ramatxada, representantes do batuku, ritmo ancestral fundamental para a cultura cabo-verdiana. A iniciativa recebeu apoio do Centro Cultural Brasil Cabo Verde.
Cinema, diálogos e intercâmbios além da câmera
As gravações ocorreram entre 25 de junho e 11 de julho, com uma equipe reduzida que cruzou o Atlântico para produzir e, ao mesmo tempo, promover encontros culturais. Durante a estadia, foram realizadas exibições de episódios das duas primeiras temporadas, rodas de conversa e sessões de filmes do coletivo Nhãnha, grupo de cineastas e pesquisadoras cabo-verdianas que fortalecem a produção feminina e negra no audiovisual.
Para Juliana Cordeiro, fotógrafa do projeto, a experiência ultrapassou qualquer fronteira técnica. “Pisar em Cabo Verde trouxe uma sensação que eu nunca tinha vivido: a de reconhecer partes de mim em cada rosto. Foi como se a terra me recebesse com uma memória que o corpo já conhecia. Fotografar mulheres cabo-verdianas me fez entender que meu trabalho vai além da imagem”, revela.
Da quebrada do Centro-Oeste para o mundo
Criado em 2022, Diaspóricas nasceu para registrar a trajetória de mulheres negras na música brasileira, tendo as periferias do Centro-Oeste como ponto de partida. As duas primeiras temporadas, com cinco episódios cada, estão disponíveis gratuitamente no YouTube. A 3ª temporada, guiada pela temática “Matriarcas”, também já pode ser assistida no canal do projeto.
O trabalho audiovisual já gerou dois longas-metragens homônimos, sendo um deles premiado internacionalmente. Em 2024, o Festival Diaspóricas de Música e Cinema Negro ocupou telas, palcos e feiras afroeempreendedoras, reafirmando o compromisso do projeto com a circulação de cultura e a centralidade das narrativas negras.
A 4ª temporada, agora em pós-produção, promete ampliar o diálogo Brasil-África, afirmando a potência da diáspora como território vivo, criativo e politicamente essencial, especialmente para quem vive e cria das periferias e favelas do Brasil.














