A trajetória de uma das mulheres mais influentes da música brasileira ganha novos contornos no recital cênico “Chiquinha Gonzaga e seu legado”, que está em circulação por diferentes cidades do Rio de Janeiro. O espetáculo propõe uma imersão na vida e obra da maestrina, compositora e pianista pioneira, reconhecida por sua atuação artística e militância abolicionista e feminista.
Com direção cênica de Elisa Lucinda e direção musical de Maria Teresa Madeira, a montagem é interpretada por Raquel Paixão, que também idealizou o projeto. O recital reúne um repertório inteiramente composto por obras de Chiquinha, entre elas clássicos como Corta-Jaca, Lua Branca e Ô Abre Alas, mesclando música e teatro em um diálogo que revisita momentos marcantes da história da artista.
A proposta é ir além da biografia musical. Em cena, Paixão traz reflexões sobre a representatividade de mulheres negras no universo da música clássica e sobre a importância de reconhecer Chiquinha Gonzaga como uma mulher negra em um contexto histórico que a embranqueceu. “Quando descobri a negritude de Chiquinha Gonzaga, isso despertou em mim um forte sentimento de pertencimento. Espero inspirar novas gerações de pianistas negras com esse espetáculo”, afirma a pianista.
Para Elisa Lucinda, a obra cumpre um papel de reconstrução simbólica. “O Brasil não produziu no imaginário popular a imagem da Chiquinha Gonzaga negra, feminista e revolucionária. Queremos devolver essa dimensão à história dela”, destaca a diretora.
Maria Teresa Madeira reforça o caráter social e artístico da iniciativa. “Chiquinha foi uma mulher à frente de seu tempo. Suas composições e sua atuação pública levantaram debates que continuam urgentes até hoje”, comenta.
O espetáculo já passou por palcos como o Firjan Sesi Caxias e o Teatro Feso, em Teresópolis, e segue agora para novas apresentações:
- 16 de outubro, às 19h, na Casa do Choro, no Centro do Rio
- 17 de outubro, às 9h, em Barra Mansa
Chiquinha Gonzaga: pioneira e revolucionária
Francisca Edwiges Neves Gonzaga foi a primeira mulher a viver de música no Brasil, rompendo barreiras de gênero e classe em um século XIX profundamente desigual. Além de ter criado a primeira marchinha de Carnaval, Ô Abre Alas, a compositora usou os ganhos com suas partituras para comprar a alforria de pessoas escravizadas e apoiar a luta pela abolição.
Sua produção combinava a formação clássica ao ritmo popular das ruas, influenciada por gêneros como o maxixe, o lundu e o choro — estilo do qual foi uma das fundadoras.
A intérprete e idealizadora
Raquel Paixão é pianista, atriz e professora, com carreira voltada à valorização da música brasileira. Vencedora do Concurso Jovens Instrumentistas de Campos dos Goytacazes, já realizou recitais no Brasil e no exterior e foi premiada no Festival de Berlim pelo curta Manhã de Domingo, em que interpreta uma pianista.
Com formação em piano clássico e mestrado em música, a artista também se destaca na educação musical, sendo autora da coletânea Teclas Brasileiras, voltada à difusão de compositoras do país.














