Na Chapada Diamantina, a produção de cachaça no município de Abaíra ultrapassa o campo da economia. A atividade sustenta famílias, movimenta a economia local e preserva práticas culturais que atravessam gerações, funcionando como um verdadeiro motor de desenvolvimento em territórios que, muitas vezes, enfrentam desafios semelhantes aos das periferias urbanas.
De acordo com o extensionista rural aposentado Nelson Luiz Pereira, a importância da atividade já era evidente desde a década de 1980. Ele afirma que, à época, a produção chegava a ultrapassar 10 milhões de litros por safra, o que colocava a cana-de-açúcar como uma das principais fontes de emprego na região. “Isso transformava a economia de Abaíra como a maior empregadora de mão de obra”, explica.
Ainda segundo Pereira a organização dos produtores surgiu justamente da necessidade de valorizar essa produção. Ele relata que a criação do Festival da Cachaça, em 1987, teve como objetivo dar visibilidade ao potencial econômico da bebida. “O intuito não era a festa, mas chamar atenção para a riqueza que existia ali”, afirma.
Com o tempo, essa mobilização resultou na criação de associações e, posteriormente, de uma cooperativa. O presidente da cooperativa, Adelson Silva, explica que o processo começou com cerca de 50 famílias e hoje envolve aproximadamente 144. Segundo ele, a produção impacta diretamente a vida da população. “A economia da cidade tem o dedo da cana em tudo. Muitos profissionais se formaram porque os pais trabalhavam na cachaça”, destaca.
Além da geração de renda, a organização coletiva também permitiu melhorar a qualidade do produto e ampliar sua presença no mercado. De acordo com Lucimério Oliveira, responsável pelo acompanhamento técnico, a padronização é essencial para manter a competitividade. “Os produtores são capacitados e a gente analisa amostras em laboratório. O mercado só aceita cachaça com qualidade e padrão”, afirma.

Esse processo, segundo ele, também influencia diretamente a renda dos produtores. “No final do ano, a gente divide o resultado entre os produtores. Quem produz mais recebe mais, mas todos ganham”, explica.
Apesar dos avanços, Nelson Luiz Pereira aponta que a produção atual enfrenta desafios, principalmente relacionados às mudanças climáticas. Segundo ele, a redução das chuvas afetou diretamente o cultivo da cana. “Hoje, sem água, não se consegue produzir como antes”, afirma.
Mesmo com essas dificuldades, a cadeia produtiva da cana continua gerando oportunidades, inclusive fora da produção da bebida. O aproveitamento do bagaço, por exemplo, tem se transformado em fonte de renda para artesãs da região.
Na comunidade de São José, a agricultora e artesã Alda Novais relata que passou a trabalhar com a fibra do bagaço após participar de um curso. Segundo ela, a atividade tem impacto tanto econômico quanto cultural. “É muito gratificante transformar o bagaço em arte. É um produto sustentável e ajuda a manter viva a cultura da cidade”, afirma.
A artesã Maria Aparecida de Oliveira, da comunidade Brejo de Abaíra, também destaca a importância da atividade. Segundo ela, o artesanato representa uma alternativa de renda e desenvolvimento pessoal. “É um trabalho que ocupa a mente, gera renda e ainda valoriza a cultura local”, explica.
Para os entrevistados, esse conjunto de atividades mostra que a produção da cana-de-açúcar vai além da cachaça. Pereira afirma que praticamente toda a planta é aproveitada, o que amplia as possibilidades econômicas. “Se aproveita da raiz até a ponta. Tudo pode ser transformado em outro produto”, diz.
Ele também defende a diversificação como caminho para fortalecer a economia local, citando derivados como melado, rapadura e outros produtos alimentícios. Segundo ele, esses itens podem ampliar o mercado e gerar novas oportunidades para os produtores.
Outro ponto levantado pelos entrevistados é o papel cultural da cachaça na região. Para Pereira, a bebida faz parte da identidade local e da própria formação histórica do Brasil. “É um produto cultural, ligado à nossa história e à nossa economia”, afirma.
Mesmo com reconhecimento nacional e avanços na qualidade, os entrevistados avaliam que ainda há desafios para fortalecer o setor, especialmente na valorização do produto e na permanência dos jovens no campo.
Ainda assim, segundo os produtores, a atividade segue como um dos pilares da região. Para eles, cada etapa do processo, da plantação ao artesanato, contribui para manter viva uma tradição que continua gerando renda e identidade para Abaíra.














