O primeiro pôr do sol de 2026 transformou o Farol da Barra, em Salvador, em um grande território de celebração da cultura afro-brasileira, da ancestralidade e da força feminina. Centenas de pessoas ocuparam o espaço para acompanhar a 26ª edição do Pôr do Som, projeto idealizado pela cantora Daniela Mercury, que já se consolidou como um ritual coletivo de início de ano para moradores das periferias e de diferentes regiões do Brasil.
Patrocinado pelo Governo da Bahia, por meio da Secretaria de Cultura do Estado (Secult) e da Superintendência de Fomento ao Turismo (Sufotur), o evento contou com uma apresentação inédita da família Mercury e participações especiais de Ivete Sangalo e Geraldo Azevedo. O público acompanhou o espetáculo em uma passarela de 40 metros montada em direção ao Farol, reforçando o caráter simbólico de atravessar o ano sob proteção, música e axé.
Para quem acompanha o evento há anos, o Pôr do Som vai além de um show. “É o meu sexto Pôr do Som. Um dos momentos mais importantes é quando o sol está baixando e ela está ali, abençoando o ano da gente. É como um ritual”, contou o turista Luiz Paulo Oliveira, de 29 anos, que veio de Maceió para viver a experiência.
Neste ano, o espetáculo ganhou um tom ainda mais profundo com a homenagem à ialorixá Mãe Carmen de Oxaguiã, do Terreiro do Gantois, falecida na última sexta-feira (26). Daniela Mercury abriu o show com músicas que reverenciam os orixás, como Meu Pai Oxalá e É Terreiro, canção recém-lançada como música do Carnaval de 2026. A escolha do repertório reforçou a centralidade das religiões de matriz africana, historicamente criminalizadas, mas fundamentais para a identidade cultural das favelas brasileiras.

“Maria Padilha abre o caminho. É uma música que fala da força da mulher, da mulher que não chora por homem nenhum. Ela é caminho, começo e fim”, explicou Daniela. Segundo a artista, a mensagem que guia o Pôr do Som é a valorização da potência feminina, da autonomia e da espiritualidade como forças de transformação social.
O secretário estadual de Cultura, Bruno Monteiro, destacou a importância do investimento público em iniciativas que dialogam com a diversidade cultural do povo baiano. “Abrimos o ano afirmando a Bahia como um estado de alegria, cultura e arte. Apoiar o Pôr do Som tem um sentido muito grande, porque Daniela é uma das artistas mais importantes da Bahia e uma grande ativista dos direitos humanos e da democracia”, afirmou.
Além do público anônimo, o evento reuniu artistas, influenciadores e personalidades de diferentes áreas. O ator Samuel de Assis, que atualmente atua na novela Três Graças, também marcou presença. “O ano só começa depois que Daniela dá o pontapé. E estar em Salvador, que é o lugar que eu mais amo no mundo, deixa tudo ainda mais especial”, disse.
Ao unir música, ancestralidade e ocupação simbólica do espaço público, o Pôr do Som reafirma Salvador como um território onde a cultura negra nasce, resiste e se reinventa. Para as periferias, o evento representa mais do que entretenimento: é um gesto de pertencimento, memória e esperança para o ano que começa.














