Milhares de manifestantes tomaram as ruas da Praia de Copacabana na tarde de ontem para protestar contra o Projeto de Lei da Dosimetria, aprovado na última semana pela Câmara dos Deputados e agora sob análise no Senado. A proposta, que altera regras de cálculo de penas, pode reduzir significativamente a pena do ex-presidente Jair Bolsonaro e de outros condenados por tentativa de golpe de Estado, suscitando ampla rejeição popular.
A mobilização, organizada por partidos políticos de esquerda, movimentos sociais e coletivos estudantis, começou por volta das 14h entre os postos 4 e 5 da orla de Copacabana. Apoiadores seguravam faixas com frases como “Sem anistia” e “Não à impunidade”, enquanto o público entoava gritos de ordem contra o Congresso e em defesa da democracia.
O protesto teve também um caráter cultural e artístico: nomes consagrados da música brasileira, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paulinho da Viola, Emicida, Xamã e Lenine, participaram das apresentações no trio elétrico. Veloso, ao cantar “Podres Poderes”, foi saudado pela multidão, reforçando o tom de crítica ao que manifestantes consideram uma tentativa de “blindagem” e de revisão benevolente de penas para o ex-presidente. 
Segundo estimativas do Monitor do Debate Político, ligado à USP em parceria com a ONG More in Common, cerca de 18,9 mil pessoas participaram das manifestações no Rio, enquanto aproximadamente 13,7 mil estiveram na Avenida Paulista, em São Paulo. Juntas, as duas maiores cidades reuniram mais de 32 mil manifestantes no país. 
No Rio, o clima misturou momentos de festa, com a música e as performances artísticas, e de forte crítica política. Discursos de lideranças e parlamentares reforçaram o repúdio à proposta e a defesa de que as condenações relacionadas ao golpe de 8 de janeiro de 2023 sejam mantidas sem flexibilizações. 
O PL da Dosimetria, que agora seguirá para votação no Senado Federal, foi aprovado na Câmara com maioria significativa de votos. O texto prevê que penas decorrentes de diferentes condenações possam ser cumpridas simultaneamente, ao invés de consecutivamente, o que pode reduzir drasticamente o tempo de prisão de Bolsonaro — atualmente superior a 27 anos — para cerca de dois anos e poucos meses, caso a lei entre em vigor. 
Críticos classificam a proposta como uma forma disfarçada de anistia ou “blindagem” legal, que aliviaria a punição de responsáveis pela tentativa de golpe e de aliados políticos, enfraquecendo os esforços de responsabilização pelos ataques às instituições democráticas de 2023. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já sinalizou que tende a vetar o projeto, mas a proposta ainda enfrenta um cenário de forte disputa política no Congresso. 
Enquanto isso, manifestações similares ocorreram em várias capitais brasileiras no domingo, incluindo Brasília, Belo Horizonte, Recife e Curitiba, refletindo a amplitude da mobilização nacional contra o projeto.














