Foto: Divulgação
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Teve início neste sábado (18) a terceira edição do Festival Àgbádó – Semeando Futuro, Honrando Ancestrais, no Museu da República, no Catete, no Rio de Janeiro. Realizado pelo Instituto Afrikerança, o evento segue até segunda-feira (20) e já se consolida como um dos principais espaços de valorização das culturas de matrizes africanas, do diálogo inter-religioso e do fortalecimento da economia criativa ancestral, com reflexos diretos nas favelas e periferias da capital e da Baixada Fluminense.

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Nascido da força da representatividade do povo negro, o Festival Àgbádó tem como símbolo central o milho, alimento sagrado de Ọ̀ṣọ́ọ̀sí, orixá conhecido como o Grande Caçador. Para além do campo religioso, o grão é apresentado como base de sustentabilidade, fartura e conexão entre passado, presente e futuro, especialmente para as populações negras historicamente marginalizadas nas periferias e favelas brasileiras.

Cultura, fé e política pública no centro do debate

Realizado durante a Semana da Diversidade Religiosa, o festival reforça a defesa do Estado laico e o enfrentamento ao racismo religioso, realidade que atinge de forma mais dura os terreiros localizados em territórios periféricos. Nesta edição, o Afrikerança amplia parcerias institucionais, mantendo a colaboração com o Museu da República e o IBRAM, e somando forças com a Coordenadoria de Diversidade Religiosa e o COMPLIR.

A proposta é transformar o espaço público em território de diálogo, garantindo que lideranças religiosas de matrizes africanas, muitas delas oriundas das favelas, tenham seus direitos reconhecidos como cidadãos e cidadãs.

Protagonismo das periferias na construção do festival

Consolidado como instituto em 2025, o Afrikerança amplia em 2026 o protagonismo de coordenadoras de diferentes municípios do estado do Rio de Janeiro, fortalecendo a construção coletiva do evento. Mães de santo, educadoras, artistas e lideranças culturais de cidades como São Gonçalo, Duque de Caxias, Nilópolis, Magé, Maricá e Itaboraí assumem papel central na programação, evidenciando a força cultural que emerge das periferias fluminenses.

Após duas edições marcadas pelo incentivo ao empreendedorismo ancestral, com a presença de artesãos e fazedores de cultura, o festival recebe novas parcerias estratégicas, como a Lanoz Events e a Feira Ziriguidum, fortalecendo a economia criativa negra, importante alternativa de renda para moradores de favelas e periferias.

Reconhecimento às casas de axé e à memória negra

Como forma de reconhecimento ao trabalho contínuo de salvaguarda da memória, da cultura e da dignidade do povo negro, o Instituto Afrikerança pleiteia junto à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) uma Moção de Aplausos às Casas de Axé e Grupos Culturais de Matrizes Africanas que constroem o festival desde a primeira edição.

“Assim como o Grande Caçador, atiramos com uma única flecha: a do amor ao sagrado, e conquistamos muitos parceiros, multiplicando benefícios em nome da fartura, da solidariedade e da (re)existência”, afirmou uma representante do Instituto Afrikerança.

Programação une arte, educação, saúde mental e combate ao racismo

A programação do Festival Àgbádó 2026 reúne rodas de diálogo, palestras, oficinas, apresentações artísticas e celebrações religiosas, abordando temas como laicidade do Estado, preservação da memória, racismo estrutural, saúde mental e ancestralidade. As atividades reafirmam as matrizes africanas como patrimônio vivo e tecnologia ancestral de resistência, especialmente nas favelas, onde a cultura negra segue sendo instrumento de sobrevivência e afirmação identitária.

O encerramento contará ainda com a entrega de alimentos em situação de vulnerabilidade no entorno do Museu da República, reforçando o compromisso social do festival com as comunidades periféricas.

Afrikerança: cultura, memória e justiça social

O Instituto Afrikerança é uma organização sem fins lucrativos dedicada à preservação e promoção das culturas africanas e afro-brasileiras. Atua nas áreas de educação, cultura, memória, sustentabilidade e justiça social, enfrentando a marginalização das matrizes africanas que atinge, sobretudo, terreiros localizados em favelas e periferias.

Entre seus projetos estão o Festival Àgbádó, voltado à segurança alimentar e à sustentabilidade, o documentário Memórias de Terreiros e a Feira Literária Narrativas Ancestrais, fortalecendo a circulação de saberes negros e a valorização das epistemologias produzidas nos territórios periféricos.