O Carnaval do Recife 2026 terá entre suas homenageadas a chef, iabassê e guardiã da cultura afro-brasileira Dona Carmem Virgínia. Reconhecida por unir gastronomia ancestral, religiosidade e valorização da identidade negra, ela passa a integrar o grupo de personalidades celebradas na maior festa popular da capital pernambucana, ao lado do cantor Lenine e do centenário Bloco Madeira do Rosarinho.
Natural de Santo Amaro, bairro da área central do Recife marcado pela força cultural e pela resistência popular, Dona Carmem construiu sua trajetória profissional e espiritual a partir das referências familiares e comunitárias. Neta de merendeira e descendente de mulheres trabalhadoras, transformou a cozinha em território de memória, afeto e preservação das tradições afro-brasileiras.
À frente do Altar Cozinha Ancestral, empreendimento reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Recife, Dona Carmem utiliza a culinária como ferramenta de afirmação identitária, geração de renda e valorização dos saberes transmitidos entre gerações. O espaço funciona também como ponto de encontro cultural e religioso, fortalecendo vínculos comunitários e promovendo inclusão social em um território historicamente atravessado por desigualdades.
Além da atuação gastronômica, ela exerce a função de iabassê do Afoxé Ogbon Obá, sendo responsável pelo preparo dos alimentos sagrados ligados aos rituais do candomblé. O trabalho reforça a conexão entre espiritualidade, cultura e tradição, elementos que atravessam as manifestações populares do Carnaval pernambucano e mantêm viva a herança africana na cidade.

Outro destaque de sua trajetória é a criação do Ubuntu, encontro de Afoxés que antecede oficialmente a abertura do Carnaval do Recife. O evento reúne grupos afro-religiosos em um ritual coletivo de purificação espiritual, com banhos de ervas, lavagem simbólica da Avenida Rio Branco e cortejo até o Marco Zero. Incorporada ao calendário oficial da cidade, a celebração amplia a visibilidade das religiões de matriz africana e reafirma o papel dessas tradições na construção da cultura popular brasileira.
Para Dona Carmem Virgínia, a homenagem simboliza o reconhecimento da luta histórica das mulheres negras, das mulheres de terreiro e das trabalhadoras que sustentam suas famílias por meio do trabalho e da fé. Sua trajetória dialoga com a realidade de muitas lideranças femininas das periferias e comunidades tradicionais, que transformam conhecimento ancestral em resistência cultural e transformação social.
Ao celebrar Dona Carmem Virgínia, o Carnaval do Recife reafirma o protagonismo das culturas populares e das raízes afro-brasileiras que sustentam a identidade da cidade. Mais do que homenagear uma personalidade, o reconhecimento valoriza histórias coletivas que nascem nos territórios, nas cozinhas, nos terreiros e nas ruas onde o povo constrói, diariamente, sua cultura e sua resistência.














