Como o mercado do crime branco molda a empatia nacional
O Brasil revela o funcionamento diário do racismo estrutural no primeiro contraste entre quem corre da polícia e quem viu documentários.
Um jovem favelado corre e logo ganha o rótulo de bandido, mesmo sem julgamento. Enquanto isso, os assassinos brancos se tornam personagens lucrativos no mercado real do crime, tratados como figuras complexas, traumatizadas ou carismáticas. Essa diferença mostra um país que consome violência como entretenimento e que só oferece empatia quando o sangue derramado é branco.
A fabricação da empatia branca
A identificação da mídia funciona como engenharia psicológica e política, pois escolhe cuidadosamente o ângulo, o enquadramento, o tom e o detalhe. Dessa forma, o assassino branco deixa de ser matador e passa a ser personagem, meme, estatueta, ícone da moda, alguém com infância, dilemas e motivações quase justificáveis.
O fascínio pelo criminoso branco
E o fascínio não é pequeno, Suzane Von Richthofen vira glamour mórbido, Lazaro Barbosa ganha culto digital como anti-herói, documentários americanos convertem maníacos em celebridades, os irmãos Cravinhos são romantizados, uma legião de fãs troca cartas com serial killers, e o jovem prisioneiro branco vira “menino educado”, “família”, “perturbado”. Em todos esses casos, a criminalidade branca não circula apenas como narrativa, mas também produz moda, estética e lucratividade ao assegurar uma humanidade seletiva.
O caso de Oruam e Julia Zanatta

A reação da senhora deputada Zanatta ao comentário de Oruam mostra claramente este mecanismo. Portanto, o discurso conservador rapidamente se atém ao rótulo de ameaça, enquanto trata brancos envolvidos em crimes reais como curiosidades psicológicas, objetos de estudo ou vítimas das circunstâncias.
O comentário de Oruam, feito sobre uma foto em que Zanatta posa em um trono cheio de balas, ladeado por submetralhadoras e acompanhado pela legenda “Jogo de Santa Catarina”, um estado recorde em lesão racial, expõe essa lógica diretamente.

Zanatta, que sustenta um discurso moralista, enfrenta representações e investigações relevantes. A PGR estabelece emenda parlamentar de R$ 800 mil para um clube de tiro a ela vinculado. O Tribunal de Contas de Santa Catarina apontou mais de 200 irregularidades no processo, entre documentos adulterados e critérios sob medida. Há pedidos de investigação por peculato-desvio, corrupção ativa e passiva, desvio de finalidade. Além disso, ela já foi representada por lesão contra o presidente Lula e pressiona o Exército por explicações sobre falhas nos registros dos CACs, reforçando sua agenda de armas.
Enquanto isso, o Brasil acompanha massacres em favelas, onde corpos negros viram “bala perdida” e a polícia se tornar sinônimo de terror. Para amenizar a angústia coletiva, o país consome a violência estetizada, transformando a dor em espetáculo. Séries e produções audiovisuais apresentam a prisão como fantasia colonial “bem produzido”, escondendo o horror real da superlotação, tortura, fome e morte.
Um momento histórico, crime, mídia e armar a classe média
Paralelamente, a glamourização de criminosos brancos avança junto com a liberação do porte de armas e com a ofensiva da direita para associar “narcotraficante” exclusivamente a favelados. Durante o governo Bolsonaro, a Polícia Federal liberou 15.801 portes, um aumento de cerca de 60%. Mais de 40 atos normativos afrouxaram o controle sobre armas e munições, permitindo que CACs acumulassem verdadeiros arsenais.
Assim, a mídia passa a normalizar a cultura de morte. Consequentemente, brancos de classe média e alta se armam e até matam, frequentemente sem punição, enquanto favelados e negros seguem criminalizados e desumanizados.
E casos recentes reforçam isso. Pessoas brancas e ricas envolvidas em violência letal recebem enquadramentos de “defesa”, “tragédia familiar” ou “sofrimento psicológico”. Nessa engrenagem, mídia, Estado e ideologia armamentista formam um tripé que justifica racismo estrutural, higienismo social e a produção contínua de uma política de morte.
A humanidade que a mídia decide dar
A mídia produz humanidade seletiva e, no Brasil, essa humanidade sempre teve cor, classe e endereço. Por essa razão, narrativas como as de Orúam, Cláudia Ferreira e o menino Patrick raramente conseguem entrar de fato no debate público, porque o sistema as esmaga antes que o país consiga compreendê-las.
O momento atual revela um esforço ideológico contínuo, que envolve armar a classe média branca, transformar criminosos brancos em personagens rentáveis e institucionalizar a desumanização de corpos negros e periféricos.
Consequentemente, o país normaliza não apenas a morte física, mas também uma morte simbólica, uma violência que apaga afeto, imaginário e empatia.
O texto mostra como os jovens periféricos negros continuam sendo criminalizados, enquanto os assassinos brancos se tornam celebridades midiáticas. A trajetória de Julia Zanatta exemplifica esse paradoxo, pois reúne discurso moralista, investigações sérias e defesa obsessiva da expansão do armamento. A glorificação dos criminosos brancos se confunde com a política das armas e com o projeto ideológico da direita, reforçando um país onde raça, classe e privilégio definem quem vive, quem morre e quem vira estatística.














