No próximo dia 15 de novembro, a partir das 14h, o Engenho Velho da Federação será novamente palco de uma das mais importantes expressões de resistência da Bahia: a 21ª Caminhada Pela Paz, Pela Vida e Contra o Racismo Religioso, mobilização histórica construída pelos terreiros do território e que, mais uma vez, ecoa das ruas às periferias de Salvador o pedido por respeito, justiça e proteção às tradições afro-brasileiras.
O ato parte da Praça Mãe Runhó, no fim de linha do Engenho Velho da Federação, e percorre avenidas da Federação, Garibaldi e Vasco da Gama — bairros que abrigam alguns dos terreiros mais antigos e importantes do país, como a Casa Branca, o Terreiro do Gantois, o Terreiro de Oxumaré, o Bogum, o Tumba Junsara e o Tanuri Junsara. Esses espaços, fundamentais para a manutenção da cultura de matriz africana, enfrentam cotidianamente os impactos diretos do racismo religioso que atravessa as favelas e periferias brasileiras.
Exú, o Mensageiro, no centro da homenagem
Com o tema “21 anos afirmando Paz e Respeito”, a edição deste ano presta homenagem a Exú, Orixá Mensageiro, Senhor da Presença e da Comunicação. Reconhecido por abrir caminhos e conduzir transformações, Exú também é uma das divindades mais atacadas pelo racismo religioso, frequentemente alvo de demonização por parte de discursos intolerantes.
A homenagem reforça a importância de combater estigmas que recaem sobre as religiões de matriz africana, especialmente em territórios periféricos, onde casas de axé, frequentadores e lideranças ainda sofrem perseguições, agressões físicas, destruição de objetos sagrados e ameaças.
“Não se trata de tolerância, e sim de respeito”
Para Valnízia Pereira, Mãe Val de Ayrá, yalorixá do Terreiro do Cobre e uma das organizadoras da caminhada, ocupar as ruas é uma forma de proteção coletiva e de reafirmação da fé dos povos de axé:
“Ocupamos as ruas para mostrar nossa união, em um pedido de paz para a nossa cidade e de respeito à nossa fé. Não se trata de tolerância, e sim de respeito ao direito que temos de cultuar o Sagrado que herdamos dos nossos antepassados, e que preservamos com muita resistência, amor e fé”, destacou.
Uma resposta histórica ao racismo religioso
Criada em 2003, a Caminhada nasceu como reação direta às violências praticadas contra o povo de axé, especialmente diante do crescimento de discursos neopentecostais que incitavam perseguição e intolerância. Desde então, o ato se tornou referência nacional, reunindo comunidades religiosas diversas, moradores de favelas e periferias, organizações sociais e pessoas comprometidas com a defesa da democracia, do Estado laico e da convivência plural.
Ao som dos atabaques, com cantos, rezas e palavras de ordem, a Caminhada Pela Paz reafirma a centralidade das culturas africanas na formação do Brasil e denuncia a urgência de proteger as tradições de matriz africana — um gesto que, para os organizadores e participantes, é também um ato de cidadania, justiça e garantia de direitos, principalmente nos territórios populares.














