Foto: Reprodução
Ajude a promover a comunicação comunitária
Google Logo Seguir no Google

Guardião da memória indígena e afro-brasileira no Carnaval de Salvador, o Bloco Apáxes do Tororó anunciou sua retomada às ruas no domingo de Carnaval de 2026, no Circuito Osmar (Campo Grande). O retorno acontece com o tema “Carlinhos Brown – A Volta do Rei de Oyó à ‘Tribo Americana’ Apáxes do Tororó” e marca não apenas um desfile, mas um ato de resistência cultural, política e comunitária, enraizado nas periferias e na história popular da capital baiana.

Publicidade

Criado em 1968, o Apáxes carrega quase seis décadas de enfrentamentos ao racismo institucional, à perseguição policial e à invisibilização das manifestações culturais oriundas da favela e da periferia. Mesmo diante da falta de políticas públicas e do esvaziamento de recursos destinados aos blocos tradicionais, o grupo se manteve como símbolo da afirmação indígena, cabocla e negra no carnaval soteropolitano.

Nos últimos anos, o Apáxes do Tororó viveu o risco real de não desfilar, reflexo direto das desigualdades que atingem manifestações culturais de base comunitária. O apoio de Carlinhos Brown surge, neste contexto, como um gesto simbólico e estratégico de retomada, reposicionando o bloco como uma potência viva da cultura popular produzida nas bordas da cidade.

A parceria resgata a memória dos carnavais ancestrais e, ao mesmo tempo, projeta novos caminhos possíveis para um carnaval mais diverso, acessível e conectado às realidades da favela e da periferia. Brown, cuja trajetória artística dialoga com identidade, inovação sonora e estética urbana, soma forças com um bloco que sempre foi território de resistência e pertencimento.

Foto: Reprodução

Encontro entre ancestralidade e futuro

A união entre o Apáxes do Tororó e Carlinhos Brown articula passado, presente e futuro. De um lado, um artista que construiu sua carreira a partir das ruas, dos tambores e da experimentação cultural. Do outro, um bloco comunitário que atravessou décadas mantendo viva a identidade indígena e afro-brasileira no carnaval.

Esse encontro amplia públicos, democratiza acessos e fortalece o carnaval como espaço político e social, alcançando jovens das periferias, comunidades tradicionais, ativistas culturais e setores historicamente afastados dos circuitos oficiais da festa.

Um legado que ajudou a moldar o Carnaval de Salvador

O Apáxes foi pioneiro em diversas inovações que hoje fazem parte do carnaval baiano, como o uso de trio elétrico adaptado à sua estética, a implantação de serviço de bar nos trios e a inclusão de profissionais de segurança e enfermagem no circuito. Contribuições que nasceram da organização popular e da vivência cotidiana da favela e da periferia no carnaval de rua.

Na década de 1990, Carlinhos Brown teve papel fundamental na revitalização do bloco, inclusive sugerindo a mudança da grafia para “Apáxes”, com X, em referência direta ao axé e às línguas originárias, fortalecendo o simbolismo e a identidade do grupo.

Desfile ritualístico e presença indígena

O desfile de 2026 contará com percussão, canto, dança e forte estética ritualística. Estão confirmadas participações de coletivos indígenas das etnias Kiriri, Xukuru-Kariri, Kariri-Xocó e Tupinambá, além de figurinos inspirados nas indumentárias cerimoniais dos povos de Abya Yala (Américas) e nas referências da realeza africana de Oyó.

Durante o desfile, o Circuito Osmar será transformado em um território simbólico de memória, celebração e resistência, onde as narrativas invisibilizadas da favela e da periferia ocupam o centro da cena carnavalesca.

Sustentabilidade, reconstrução e apoio popular

Atualmente, o Apáxes do Tororó passa por um processo de reconstrução e reinserção no circuito cultural e econômico do carnaval, sob a liderança de Adelmo Costa, com parceria do multiartista Caboclo de Cobre e contribuição de João Paulo. A proposta é garantir sustentabilidade financeira, dignidade aos trabalhadores do carnaval e fortalecimento da base comunitária do bloco.

Para viabilizar o desfile de 2026, os abadás estão à venda a preços populares: R$ 150,00 (individual) e R$ 250,00 (casadinha), disponíveis na plataforma Ingresso Simples e no perfil @apaxesdotororo2026, no Instagram. O bloco também busca parcerias institucionais, patrocínios e apoios culturais para garantir a participação das comunidades indígenas convidadas.

Reavivar o Bloco Apáxes do Tororó é reafirmar que o Carnaval de Salvador nasce da favela, da periferia e das culturas ancestrais que resistem ao apagamento. É dizer que identidade e inovação caminham juntas quando a história viva ocupa a avenida.