Uma operação da Polícia Civil realizada na manhã desta sexta-feira (26) no Complexo da Maré, na zona norte do Rio de Janeiro, resultou na morte de Edmilson Marques de Oliveira, conhecido como “Cria”, apontado como chefe do Terceiro Comando Puro (TCP) na região. A ação foi marcada por intenso tiroteio em um horário incomum, por volta das 8h30 da manhã, afetando a rotina de moradores, trabalhadores e estudantes que se deslocavam ou já estavam em escolas e postos de saúde.
De acordo com a polícia, a operação foi deflagrada de forma “emergencial” após informações sobre movimentação atípica de criminosos que planejariam atacar uma comunidade rival. As localidades mais afetadas foram Vila do João e Vila dos Pinheiros, onde o grupo mantém forte atuação.
O confronto foi tão intenso que a Linha Amarela precisou ser totalmente interditada nos dois sentidos, entre a Linha Vermelha e a Avenida Brasil, provocando congestionamentos e pânico entre motoristas. Moradores relataram ter se abrigado em escolas e unidades de saúde, que interromperam o funcionamento para proteger alunos, pacientes e funcionários.
Violência policial em números
O episódio desta sexta-feira não é isolado: faz parte de um padrão de operações policiais marcadas por violência e impactos sociais nas favelas do Rio. Somente no Complexo da Maré, em 2024, foram 42 incursões policiais que resultaram em 20 mortos, segundo dados de organizações locais. Em 88% desses casos, as operações aconteceram perto de escolas, forçando a suspensão de aulas, e em vários episódios unidades de saúde também tiveram serviços interrompidos.
No estado do Rio, mesmo após a determinação do Supremo Tribunal Federal (STF) por meio da ADPF 635, conhecida como “ADPF das Favelas”, que impõe limites às operações, foram realizadas cerca de 4.600 ações policiais desde 2020. Nesse período, ao menos 236 pessoas foram mortas durante incursões, além de centenas de feridos por armas de fogo.
Os números gerais da violência mostram a gravidade da situação. Em 2024, as regiões metropolitanas de Rio, Recife, Salvador e Belém registraram mais de 6,7 mil tiroteios, com quase seis mil pessoas baleadas. No caso da Grande Rio, mais da metade das vítimas foi atingida em contextos de operações policiais.
Além das mortes, as operações causam danos à rotina e à economia das comunidades. Relatórios apontam perdas de milhões de reais por ano em comércio interrompido, transporte paralisado e prejuízos a trabalhadores impedidos de circular. Crianças deixam de ir à escola, pacientes deixam de ser atendidos e moradores vivem sob constante insegurança.
A operação desta sexta-feira na Maré expõe mais uma vez o dilema enfrentado pelas comunidades do Rio: de um lado, a presença do tráfico; de outro, a política de confronto das forças de segurança, que transforma territórios densamente povoados em campos de batalha e deixa a população refém do fogo cruzado.














