Em setembro, a cena cultural carioca vai ganhar um novo marco: o espetáculo EFEMMERA, da companhia JP MOVE, estreia na Cidade das Artes, um dos principais palcos da cidade. A montagem mistura dança contemporânea, danças urbanas e artes plásticas para falar do universo feminino, das violências e pressões cotidianas, mas também da força, da resistência e da potência de transformação das mulheres. Mais do que um espetáculo de dança, EFEMMERA é uma travessia coletiva que nasce das ruas, das favelas e da Zona Oeste carioca, carregando para a cena central os corpos e as vozes que geralmente ficam invisíveis.
“Quantos nós cabem numa mulher?”
A pergunta que guia o espetáculo não é apenas retórica. Ela surge de vivências concretas de mulheres que convivem diariamente com as contradições de uma sociedade atravessada pelo machismo estrutural. Os “nós” podem ser lidos como amarras, dores e opressões, mas também como laços, encontros e redes de apoio. O título EFEMMERA também carrega camadas de significados. “Femme”, em francês, remete à centralidade da mulher. Já “E + RA” aponta para a ideia de uma “Era das Mulheres”, em contraponto a séculos de silenciamento. Ao mesmo tempo, a sonoridade lembra a palavra “efêmera”, que sugere fragilidade e transitoriedade, uma metáfora para a condição da liberdade feminina, que ainda não é plena nem duradoura para muitas mulheres.
Dramaturgia feita de vidas reais
Diferente de uma criação distante ou abstrata, a dramaturgia de EFEMMERA nasce de relatos reais de mulheres que compartilharam suas próprias histórias, junto de depoimentos de familiares e mulheres de seus territórios. Dessa forma, cada cena é atravessada por vivências verdadeiras, que se desdobram em movimentos, gestos e imagens cênicas. “Não queríamos falar sobre as mulheres de forma genérica. Queríamos falar de nós, dos nossos medos, das nossas dores e também dos nossos desejos. E, ao mesmo tempo, falar de todas as mulheres que se reconhecem nessas vivências”, explicam integrantes da companhia.
Esse processo dá ao espetáculo uma potência única: cada apresentação é diferente, porque a relação com o público interfere, provoca e cria novas camadas de sentido.

Corpo, arte e resistência
A estética de EFEMMERA é marcada por um diálogo entre corpo e espaço. As instalações cênicas foram construídas com materiais reciclados, reforçando a ideia de reaproveitamento e ressignificação — um gesto que é, por si só, uma metáfora da resistência. A encenação também dialoga com grandes nomes das artes visuais brasileiras. Obras de Anita Malfatti, Tarsila do Amaral e Lygia Pape inspiram as releituras que aparecem em cena, transformando o palco em uma galeria viva onde dança, imagem e plástica se encontram. A movimentação, por sua vez, é atravessada pela energia das danças urbanas. O ritmo é intenso, frenético, carregado de força e desconforto. “A gente não queria que fosse bonito e leve. Queríamos provocar, cutucar. É uma dança que incomoda porque expõe o que preferem esconder”, resume a equipe de criação.
Das favelas de Realengo para o mundo
A trajetória da JP MOVE é um exemplo de como a arte da favela alcança espaços de prestígio sem perder sua essência. A companhia surgiu a partir do Movimento Jovens de Periferia, criado em Realengo, Zona Oeste do Rio, em 1998. André Araújo e Michel Cordeiro, ambos vindos do Hip Hop e da dança de rua, começaram um trabalho comunitário que logo se consolidou como referência cultural e social. Mais de duas décadas depois, a JP MOVE acumula experiências internacionais — como apresentações no Suriname e na Holanda — e prêmios importantes. Um dos destaques foi o espetáculo “Que se Funk”, que circulou em diversos festivais e palcos levando o funk carioca para o universo da dança contemporânea, ressignificando um dos gêneros mais estigmatizados e, ao mesmo tempo, mais criativos da periferia carioca. Com EFEMMERA, a companhia reafirma sua missão: criar arte de qualidade a partir da favela, falando de temas urgentes e colocando os corpos periféricos no centro do palco.
A dança como denúncia e cura
Além de falar sobre dor, o espetáculo também propõe caminhos de cura. A dança aparece como espaço de reconstrução, onde o corpo encontra liberdade mesmo diante das opressões: “Queremos que o público saia tocado, mas também fortalecido. Que cada mulher se reconheça e cada homem seja provocado a repensar seus papéis”, afirma uma das protagonistas do Espetáculo.
Se a arte tem o poder de inaugurar novos tempos, EFEMMERA é um prenúncio de que a Era das Mulheres já começou, e começou pela periferia. Não é apenas sobre um espetáculo de dança, mas sobre um ato político, estético e social que anuncia, em pleno palco da Cidade das Artes, que as mulheres da favela não serão silenciadas.
Porque, afinal, quantos nós cabem numa mulher? Talvez todos. Mas cada nó pode ser também um fio de resistência, tecido coletivamente na dança, na arte e na vida.
Serviço
📍 Cidade das Artes – Barra da Tijuca, RJ
📅 05, 06, 07 | 12, 13, 14 de setembro de 2025
🕕 18h
👥 Classificação indicativa: 14 anos
♿ Acessibilidade em Libras
Mais informações: 📲 Instagram: @jpmove_cia e Cidade das Artes














