O espetáculo Dembwa, criação dos artistas da dança Marcos Ferreira e Ruan Wills, volta a movimentar Salvador e Região Metropolitana em nova temporada gratuita entre os dias 18 e 27 de julho. As apresentações integram o projeto “Dembwa – Mapear o Movimento: tempo, memória e ancestralidade”, que promove ainda uma partilha pública fruto de uma residência artística no dia 14 de julho, no Espaço Xisto Bahia.
A circulação passa por três territórios distintos: o Centro, a Cidade Baixa e a RMS. O público poderá conferir o espetáculo no Espaço Xisto Bahia (18 e 19/07, às 20h, e 20/07, às 18h), no Centro Cultural Lauro de Freitas (26/07, às 17h) e no Centro Cultural Alagados (27/07, às 18h). Algumas sessões contam ainda com bate-papos com os artistas, fortalecendo o vínculo entre obra, público e territórios.
Depois de estrear na capital baiana no fim de 2023, Dembwa circulou por cidades do interior como Paulo Afonso e Feira de Santana e foi destaque em eventos nacionais, a exemplo do Festival Internacional de Dança do Recife. Desde então, o espetáculo vem aprofundando diálogos, ampliando seu impacto político e estético e se firmando como um rito de encontro e reconhecimento.
Dança como rito de retorno
Sankofa. A ideia de voltar para buscar o que ficou para trás. Dembwa se constrói como uma coreografia ancestral, um rito narrado pelos corpos de Marcos e Ruan — homens pretos, periféricos, bixas, filhos de terreiro. Ao som de sambas de caboclo, danças de orixás, pagode baiano, funk, silêncio e reza, o espetáculo dança os quintais de mãe, as lavadeiras, as ganhadeiras, os terreiros e suas forças. O figurino em patchwork, feito com retalhos e sobras de tecidos, funciona como metáfora visual das memórias costuradas que habitam cada gesto.

As danças das religiões de matriz africana surgem como tecnologias do tempo: o fogo de Xangô, a espada de Ogun, as águas de Oxumarê e das yabás — orixás femininos que regem nascimentos, curas e afetos. A dramaturgia investiga a ancestralidade como caminho para um presente afrofuturista, onde rituais se conectam às danças de rua e à vida periférica. “Dançar Dembwa é lembrar quem nos sonhou, acessar o tempo como espiral, como chão. É perguntar: qual o seu chão?”, provocam os criadores.
Residência para novos corpos-criadores
O projeto se amplia com uma residência artística que reuniu, ao longo do mês de julho, artistas pretos/as e LGBTQIAPN+ da Bahia, selecionados por chamada pública. Conduzidos por Ferreira e Wills, nomes como Matheus Nazaré, Sauane Costa, Maximu Maxima, Larissa Lima, Quilomba Zu e outres participantes mergulharam em processos de criação autoral, trocas coletivas e vivências. O resultado será compartilhado com o público no dia 14 de julho, no Espaço Xisto.
A iniciativa reafirma o compromisso do projeto em valorizar saberes de rua, de casa e de terreiro, reconhecendo cada corpo como arquivo vivo e lugar de travessia.
Realizado com apoio do Governo do Estado da Bahia, através da Secretaria de Cultura e da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), o projeto reforça a potência da arte como território político, memória em movimento e ferramenta de reinscrição do presente.
Sobre os artistas
Marcos Ferreira é dançarino, coreógrafo e arte-educador. Dirige o Grupo Jeitus de Dança e o Balé Jovem de Cajazeiras, integra a Jorge Silva Cia de Dança e cursa Licenciatura em Dança pela UFBA. Já Ruan Wills transita por linguagens que vão do axé ao ballet, do teatro negro à performance, atuando hoje na Biblioteca de Dança e no Balé do Teatro Castro Alves. Juntes, fazem do palco um ponto de encontro entre passado, presente e futuro.














