Turismo comunitário poderia ter evitado morte na Rocinha, afirmam guias

3382
Carro onde estava turista espanhola foi alvejado por policiais militares. (Créditos: Reprodução Internet)

Por Jonas Linhares e Julianne Gouveia

O assassinato de uma turista espanhola por um tenente da Polícia Militar na Rocinha ontem, 23, acendeu o alerta para o setor do turismo comunitário nas favelas. Guias que desenvolvem um trabalho de valorização da realidade local criticam o despreparo e a falta de conhecimento dos responsáveis por levar para a comunidade, em um dia de tensão, o grupo em que estava Maria Esperanza Ruiz Jimenez, de 67 anos. Ela levou um tiro dentro de um carro que fazia um passeio pela favela. Dois policiais haviam sido baleados na Rocinha poucas horas antes do ocorrido.

Apesar do óbvio erro do atirador, profissionais consultados pela equipe de reportagem da Agência de Notícias das Favelas foram unânimes: passeios turísticos nunca devem ser feitos em períodos de confronto nas comunidades. A segurança deve vir em primeiro lugar. “O guia jamais poderia levar um grupo numa favela em guerra, pondo em risco a sua integridade física e a dos turistas. Quando a favela está em conflito, cancelo meus compromissos de trabalho para evitar esse tipo de situação”, conta Salete Martins, que há sete anos faz parte da equipe de 12 guias cadastrados pelo Ministério do Turismo na Favela Santa Marta, onde mora.

O turismo comunitário é fundamental não apenas para a economia das favelas, mas também para questões de segurança dos próprios visitantes. Além de oferecerem passeios diferenciados, repletos da história e da cultura locais, os guias conhecem a comunidade e, munidos de informações e contatos, são capazes de avaliar o clima no território antes de fechar pacotes. Eles devem ser contratados pelas empresas de fora da favela que desejem visitar as comunidades sem riscos para clientes e profissionais.

– O termômetro é o movimento, as ruas e os moradores. Por isso, pra quem é daqui e mora aqui, é mais fácil saber se o clima tá bom ou não. Apesar que, no momento, com todos esses conflitos, tá cada vez mais difícil saber o melhor momento para trabalhar. Não só no turismo, mas no próprio comércio local, explica o guia Erik Martins, da empresa Rocinha by Rocinha.

Segundo Erik, desde o retorno da violência há cerca de dois anos nas diversas comunidades pacificadas e a crise financeira do Estado, o movimento de turistas caiu na Rocinha, mas se mantinha estável. A maioria dos visitantes é de estrangeiros. O grande momento do turismo comunitário local aconteceu entre 2010 e 2015, durante o auge da pacificação. Nessa época, muitos brasileiros passaram a também consumir esse tipo de passeio. Hoje, o panorama é incerto e eles pouco aparecem.

Há um mês, no início da mais recente guerra da Rocinha, turistas estrangeiros ignoravam os avisos de quem mora na favela e eram vistos na comunidade mesmo durante a ocupação militar determinada pelo Ministério da Defesa. O turismo exploratório segue levando visitantes para lá, mesmo quando não há indicação para isso.

– Tem gente que vende a aventura de visitar uma favela e tem gente que se interessa em comprar a aventura, diferente de mim e da minha equipe, que vendemos a experiência de interagir com o lugar e as pessoas. Quem nos procura está interessado não na pobreza ou na aventura de conhecer uma favela, mas na curiosidade de saber como a mesma se organiza e como ela é por dentro: dinâmica, história, cotidiano, cultura, resume Erik.

Os profissionais de turismo comunitário agora temem as consequências para a economia das favelas em mais um duro golpe contra as comunidades causado pela irresponsabilidade de quem atira primeiro para perguntar depois: “Sem dúvidas, isso vai respingar nos tours de favelas, infelizmente. Estou indignada. Um policial despreparado fez uma coisa dessas. Isso não lhe dava o direito de atirar. O turismo chora, e os guias também”, finaliza Salete Martins.

 

Entenda o caso

Na chuvosa manhã desta segunda-feira, 23, a espanhola Maria Esperanza foi baleada e morta no Largo do Boiadeiro, na Rocinha. Ela estava com um grupo de turistas que fazia um passeio de carro pelas ruas da favela. O clima na comunidade já era de tensão, pois algumas horas antes um intenso tiroteio havia deixado dois policiais baleados. Um deles está internado em estado grave.

Apesar disso, uma empresa de turismo decidiu levar três pessoas para fazer um tour pela comunidade. No carro, estavam os turistas espanhóis, uma guia e um motorista. Maria estava sentada no banco de trás, entre o irmão e a cunhada, quando foi atingida no pescoço por uma bala que atravessou o vidro traseiro. Ela chegou a ser levada ao Hospital Miguel Couto, mas não resistiu aos ferimentos.

Os disparos foram feitos por dois policiais que alegam ter atirado depois de o veículo não obedecer uma ordem para parar. O motorista do carro, que é italiano e vive no Brasil há quatro anos, afirma que nenhuma ordem foi dada. Os dois turistas espanhóis sobreviventes relatam não ter percebido qualquer indicação das forças policiais.

Eles também afirmam que não foram avisados nem pela guia, nem pela empresa de turismo da situação de risco na Rocinha nas últimas semanas. A polícia investiga o caso para saber se houve negligência por parte da empresa e quais medidas devem ser tomadas em relação aos policiais que efetuaram os disparos.

O caso repercutiu na mídia internacional e virou manchete em grandes portais de notícias como El País e New York Times.