Através do retorno à sua ancestralidade, Laiane compartilha sabedorias para o autocuidado e saúde da mulher

Laiane e sua filha Maytê _ foto: arquivo pessoal

No Parque Paulista, bairro considerado periferia de Duque de Caxias, Laiane da silva Amaral se reinventou durante a pandemia, fazendo o movimento de retorno à sua ancestralidade e saberes passados pelas gerações. Nesse processo, principalmente de autoconhecimento, se reconectou aos conhecimentos preciosos, necessários e que acabaram se perdendo com o tempo, as tecnologias e o imediatismo do mundo.

Criada por sua avó, Dona Neli, baiana de 83 anos, aprendeu desde cedo sobre as medicinas naturais, que ainda são muito presentes na cultura nordestina e que “o Ocidente foi tirando de nós”.

Mãe solo de dois filhos, levou um grande susto quando um deles ficou internado tendo apenas dois meses. Nesse momento, sentiu que precisava voltar às bases, às origens, entender melhor sua história e como contribuir com a melhora de sua filha a partir dos saberes que já estavam guardados no tesouro de sua família.

Começou procurando sua bisavó, além de outras mulheres que tem grande admiração e que trabalham com as medicinas das ervas e da cura através delas. “Nós perdemos o contato com a autocura. A conexão com essas mulheres foi muito importante, pois através delas pude também me reencontrar comigo”, comenta Laiane.

Sássain

Assim, em 2020 surgiu a Sássain, seu empreendimento que trata da medicina integrativa, e visa levar produtos, práticas e conhecimento ancestrais voltados para a saúde das mulheres, principalmente as mulheres negras. O nome vem de um ritual do candomblé, onde é extraído o sangue vegetal, que seria o éter contido nas plantas. Segundo Laiane, dentro das culturas africanas esse elemento é muito importante.

Entre os produtos, atendimentos e rituais estão a vaporização uterina, uma prática milenar que trata questões físicas do útero através da exposição ao vapor das plantas; “quando uma mulher preta consegue largar o caos, sentar e vaporizar seu útero, significa um momento de autocuidado, um momento que consegue determinar para si e se priorizar, isso é muito sagrado”. Também há atendimentos com reiki, aromaterapia, e outros produtos desenvolvidos através dessa medicina.

banco para vaporização do útero

“Antigamente, as mulheres esquentavam folha de bananeira quando estavam com cólica, nessa pesquisa, desenvolvi uma bolsa de água quente com ervas e sementes, para tratar as cólicas menstruais e cólicas de bebês. Também criei um tapa olhos aromáticos para tratar ansiedade e insônia.” Liane faz todas as suas alquimias através dos saberes das medicinas africanas e dos povos originários, mas reforça que elas não substituem a medicina tradicional, e que o tratamento ideal é agir com os dois.

O empreendimento começou em 2020 e ela já vê seu crescimento. Diz também que não vê muita resistência por parte das mulheres, justamente porque conta das suas vivências,
como é na prática. “Quando tive a Maytê, morava em uma casa que não tinha sequer água potável, e com meu pequeno negócio consegui mudar minha vida. Vendo as mudanças as mulheres conseguem confiar mais”.

Liane diz que seu sonho é montar um coletivo com outras mulheres negras, mães que estão maternando solo para iniciarem em terapias, criarem juntas os produtos, gerarem renda e assim criarem uma economia colaborativa. E o que ainda falta, de acordo com ela, são as pessoas mudarem o olhar.

“Aprendemos com as mulheres mais velhas e muitas vezes passamos e não damos importância. Depois que vi outras mulheres empreendendo, eu também comecei a mudar a forma como vejo. Hoje em dia valorizo muito mais as benzedeiras, rezadeiras, parteiras, e a partir do conhecimento de suas sabedorias, podemos tomar posse dessas medicinas e entregarmos aos outros. O saber é para ser partilhado”, finaliza.

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