A cidade que agoniza

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Ocupação da Rocinha. (Créditos: Bruno Itan)

Um pavio foi aceso logo após o término da Olimpíadas. Ele deu início à série de implosões já previstas por todos, que estão devastando esta que um dia foi a dita Cidade Maravilhosa: população em pânico, vias inteiras sem acesso, roubos de cargas, confrontos diários, a qualquer hora e em vários lugares ao mesmo tempo, servidores sem salários, a estrutura do Estado em frangalhos e os governos sem qualquer resposta, muito menos uma solução.

Enquanto isso, as cenas vistas nos últimos dias nas favelas do Jacarezinho, Juramento, Rocinha, Pavão-Pavãozinho, Santa Marta e aqui no Alemão demonstram a incapacidade dessa política de (in)segurança que estamos sobrevivendo. A cada dia, aumenta o número de mortos e de pessoas desacreditadas de que a esperança por dias melhores possa chegar.

 

Beco da Síria, no Jacarezinho. (Créditos: Bruno Itan)
Beco da Síria, no Jacarezinho. (Créditos: Bruno Itan)

 

No meio desse conflito de interesses, existem pessoas obrigadas a enfrentar sem armas essa guerra sangrenta e desleal, sujeitas a serem alvejadas sem direito à defesa. Elas estão sendo golpeadas com brutalidade, suas casas são destruídas com armamentos de grosso calibre e, por um grande milagre, o número de vitimas não é maior do que o anunciado.

Observo fixamente tanto aqueles com quem convivo aqui quanto os que conheço de outros lugares da cidade. Vejo olhares tristes e clamando por socorro. É perceptível o medo ao dar o próximo passo em qualquer lugar. É inimaginável viver numa cidade tão bonita como o Rio de Janeiro e sentir essa sensação que sentimos. Chega a doer.

Vimos as cenas da Rocinha pela tevê. Digo e reafirmo que nunca será perceptível o desespero que os moradores de lá estão vivendo. É muita covardia isso. Os órgãos de segurança sabiam, o governo sabia, muita gente sabia e ninguém evitou. Deixaram acontecer e só uma semana depois foi tomada alguma providencia, assim como aconteceu no Jacarezinho, em que só depois de dias de um rio de sangue, as forças de segurança apareceram para demonstrar à sociedade que os salvadores chegaram… Tarde demais.

 

Rocinha ocupada. (Créditos: Bruno Itan)
Rocinha ocupada. (Créditos: Bruno Itan)

 

Agora que os ditos “heróis” chegaram com as suas capas aladas, a imprensa sobe junto e quer mostrar a essa mesma sociedade da Zona Sul que sobe o morro para comprar o “pó do bom” que a Rocinha tem. Querem mostrar de forma pirotécnica que alguns dias de intervenção militar vão ser suficiente para alguma coisa… Ledo engano, senhores hipócritas. As favelas precisam de intervenções sociais, de invasão de educadores e mudanças estruturais, de governos dispostos a mudar a realidade não apenas destes espaços, mas, acima de tudo, da vida dos moradores. Não tenho visto nada disso acontecer.

Tudo que está acontecendo é um grande espetáculo que visa angariar verbas federais para a área de segurança e levantar um palanque politico onde alguns futuros candidatos já se apresentam. Precisamos muito mais que isso, porém. O que podemos fazer para mudar? Temos a obrigação de escolher melhor nossos representantes em 2018. Vamos pesquisar mais e reverter esse quadro. Sim, nós podemos.