Sérgio Vaz: Movimento, Cultura e Literatura nas Favelas de São Paulo

Sérgio Vaz - Foto Coletivo Garapa. Foto: Arquivo pessoal.

A literatura periférica tem ganhado cada vez mais atenção e notoriedade no cenário nacional. A periferia, que passou tanto tempo silenciada, tem ganhado voz nas palavras de escritores proeminentes e agitadores culturais das favelas de São Paulo. A favela desceu o morro e invadiu os espaços onde não tinha permissão para entrar. Saraus, poesias, hip hop e Slams são parte dessa revolução cultural que tem impulsionado as periferias a um salto cultural. Sérgio Vaz é escritor periférico e parte dessa revolução. Nas palavras dele acontece uma Primavera Periférica, e “só quem não anda e não vive pelas quebradas de São Paulo, ou ainda torce o nariz, não sabe do que eu estou falando. Uma evolução aos gritos ocorre em silêncio e somente os ouvidos atentos podem escutar”.

O escritor é o fundador da Cooperifa (Cooperativa Cultural da Periferia) e um dos criadores do Sarau Cooperifa, movimento que ajuda a integrar o projeto e unir a comunidade com sua poesia e histórias contadas por diferentes poetas do seu bairro. As atividades culturais da instituição acontecem no Bar do Zé Batidão, na Zona Sul de SP. Cinema na laje, Chuva de Livros, Várzea Poética, Poesia no Ar, Ajoelhaço, Natal com Livros, Mostra Cultural, Sarau nas Escolas e Canja Poética são algumas das muitas das intervenções da Cooperifa.

O projeto já produziu mais de 50 saraus e ajudou a publicar mais de 100 livros independentes. Vaz ganhou diversos prêmios, entre eles Unicef (2007), Orilaxé (2010), Trip Transformadores (2011) e Governador do Estado de São Paulo na categoria de Destaque Cultural (2011).

Sérgio publicou seis livros, entre eles Colecionador de Pedras (2013), Literatura Pão e Poesia (2011) e Flores de Alvenaria (2016), todos pela Global Editora. Os livros são acompanhados de poemas únicos e uma sensibilidade sagaz que transporta o leitor para um Brasil profundo e obscuro, longe da segurança, dos direitos, da liberdade individual, que é violada de todas as formas possíveis nas periferias da cidade paulistana. Em Colecionador de Pedras existe uma postura de um favelado indignado e que tem consigo pensamento e criatividade para desnudar o sofrimento de seu povo e escrevê-lo para o mundo em forma de uma poesia-denuncia, para que assim o leitor possa ler o livro e se dar conta de que existe um Brasil onde as pessoas ainda passam fome, onde mulheres precisam se prostituir e crianças não têm o direito de estudar. Flores de Alvenaria também aborda temáticas sociais, mas com um breve entusiasmo de quem deseja um mundo melhor para si e para o lugar onde mora. Nesse livro as poesias parecem ser mais voltadas para um ser que espera por dias melhores e crê na poesia e na esperança para poder continuar o dia e ajudar a transformar seu próprio mundo.

           

O Colecionador de Pedras (Colecionador de Pedras)

“Pedro

nasceu em dia de chuva

no ventre da tempestade:

Deus deu-lhe a vida,

a mãe luz e pele escura.

Dona Ana era jardineira, plantava flores sobre pedras.

O pai, espinho de trepadeira apenas doou o esperma. […]”

Neste poema, Sérgio irá abordar questões sobre o abandono parental. Para ilustrar essa situação ele se utiliza de antagonismos e enaltece a figura feminina que é vista como uma jardineira, figura metaforicamente descrita como alguém que planta flores sobre pedras. A imagem, no entanto, revela-se catastrófica e disforme de sua realidade, pois uma flor não sobreviveria em um cenário como este, por isso a figura da jardineira carrega consigo a incerteza de quem planta mesmo sem saber o sucesso de suas raízes e crescimento saudável da flor, tenta mesmo correndo riso de falhar. Essa figura parece ser evocada na poesia para dar luz as dificuldades da personagem Ana e qualificá-la como alguém persistente frente as dificuldades e com uma certa esperança de vida associada a uma tentativa de melhoria de vida que viria através do ato de plantar. O pai, outrora, é caracterizado como um espinho, parte de uma flor que não arranca seu brilho, no entanto não a engraece, pois, o encanto da rosa não está em seus espinhos, e sim em suas pétalas que são belas, e por si só formidável. O espinho, porém, pode lesionar quem o toca, e esse é o objetivo em caracterizá-lo como alguém que somente atrapalhou o desenvolvimento da Flor (Ana). A pedra é um elemento que continua presente em todo o poema, e parece ser parte da dificuldade arrastada durante toda a vida de Pedro, que tem de lidar com situações difíceis até conseguir ser feliz.

 

Gente miúda (Colecionador de Pedras)

“Daniel não tinha documentos,

RG, certidão ou carteira profissional.

Não tinha sobrenome,

não tinha número, nem cidade natal. […]

[…] Morreu

velho e abatido

depois de viver, todos os dias,

durante trinta e sete anos,

como se nunca tivesse existido.”

Esse poema dá inicio a ideias que estão principalmente relacionadas a uma esperança que reside no trabalho e nas formas capitalistas de subsistência. Daniel é um cidadão aparentemente comum, porém lhe falta o Registro Geral, que lhe garantiria a possibilidade de fazer parte da pólis como cidadão e plenamente capacidade para cumprir e usufruir de seus direitos e deveres. Falta também a Daniel uma Certidão, que lhe garantiria uma possível vida “mais fácil” para poder saber de onde/quem vem e como poderia ser ajudado por seus pais, caso precisasse. Por último, e não menos importante a personagem não possui um vínculo empregatício, este talvez um dos mais importantes documentos para sua socialização na cidade. Todos os documentos citados e aparatos tecidos parecem legitimar aquilo que se espera de um cidadão comum que possa ser validar sua presença na sociedade civil. Porém, o autor descarta essa possibilidade e nossa personagem vive apenas para as ruas e morre nelas; a margem de um estado omisso, segregador e que não se importa com aqueles que nunca puderam pertencer ao mundo, ainda que quisessem. O final do poema revela justamente a invisibilidade dos moradores de rua e a falta de apreço que existe por pessoas que ainda que vivas estão mortas para o estado. O uso da palavra morte no pretérito perfeito parece demonstrar não só um certo distanciamento, que isola a personagem de um mundo de real participação cidadã, mas um movimento onde a imagem da morte parece ser uma linha que vai se desfazendo seu sentido ao longo do texto, até diminuir completamente a pessoa humana. Os números parecem também ter sido utilizados para distanciar ainda mais essa personagem e torna-la quase um objeto a ponto de sua morte não caracterizar problema a ninguém, senão a ela mesma e seu apagamento no mundo, que se concretiza no ato de morte.

Todos os poemas abordados em Colecionador de Pedras são extremamente curiosos para observar a percepção de alguém com consciência de classe e entendimento do seu papel no mundo. Indico ainda a leitura do poema Ornitorrinco, que trata do trabalho infantil, Oração dos desesperados com uma súplica aos “deuses das máquinas”, Jorginho sobre o destino das crianças sem pai e condenados a uma vida de miséria e marginalidade, Fanático que traz uma rápida reflexão sobre a alienação, Pé de Pato, onde o autor de utiliza do verbo matar e acaba rompendo com as expectativas do leitor ao longo do texto, Coisas da Vida (terra em transe) sobre os antagonismos da vida e as misérias da sociedade, e os Miseráveis retratando a vida de dois personagens muito semelhantes, que tomam caminhos opostos devido suas condições sociais.

 

Flores de Alvenaria (Flores de Alvenaria)

“[…] Dá-me tua mão, amor

a madrugada tem olhos que machucam

e as ruas estão cobertas de pequenas estrelas

anunciado que o passado sombrio

caminha contra a liberdade do futuro.”

Este poema de Vaz segue uma lógica fraternal entre duas pessoas. A personificação dos estados de tempo no poema parece simbolizar uma certa agressividade da vida ante o homem, que pode não sair ileso dela. O antagonismo entre passado e futuro reverberam um indicativo de oposição onde não existe um espaço para o meio, ou seja, não há um lugar para a calma e somente uma forma rápida e agressiva de surtir ambos os tempos da memória pessoal do eu-lírico. É possível também observar a imagem inicial da mão como algo que está presente de uma forma palpável no mundo. Diferente da imagem de mundo/tempo que ao longo da estrofe ganha vida e torna-se imageticamente intocável, o uso das palavras passado e futuro caminham nesta mesma direção e só podem estar presentes no imaginário do próprio eu-poético.

 

A vida é loka (Flores de Alvenaria)

“[…] Esses dias tinha um moleque na quebrada com uma

Arma de quase quatrocentos páginas na mão.”

Este poema parece romper com uma realidade existente em algumas favelas do Brasil, ou seja, um cenário de crimes e violência. O trecho em questão faz uso dessas palavras, como as armas que geralmente são associadas somente as favelas para dizer que as armas que estão sendo utilizadas nas comunidades também são armas culturais e de poder intelectual que podem emancipar as pessoas e ajudá-las a compreender sua própria realidade através da leitura. O uso metafórico de arma também salienta para o fato de que por meio daquela leitura o sujeito social terá de alguma forma uma gama de informações que pode lhe possibilitar reagir as violências sociais de uma forma inteligente e estruturada, pois sugere-se que a cultura letrada (através do livro), daria esse poder e conhecimento de sua própria realidade e capacidade de reação.

Além destes dois poemas citados em Flores de Alvenaria, seria importante ler Primavera Periférica, que é um texto/manifesto de Sérgio para falar sobre os eventos que acontecem nas comunidades e como estes movimentos alteram as dinâmicas culturais das pessoas, Canto das negras lágrimas é um poema sobre navio negreiro sobre a comunidade e as pessoas, Oração de um vira-lata fala acerca do amor e a crença do eu-poético em uma forma de religião que tenha seu amor como pilar e nenhuma discriminação as demais religiões e/ou pessoas, Miniconto é um texto ácido sobre a felicidade, Temporal fala sobre emoções, choro, pessoas, Somos nós também é um texto mais longo, porém traz uma mensagem com um entusiasmo de identificação do povo pelo povo, um sentimento de comunidade que guia uma revolta frente os descasos sociais, Fundação casa… é quase um depoimento pessoal do autor falando sobre uma descoberta por um estudante sobre Racionais MC’s e a poesia nas letras musicais do grupo.

Por fim, gostaria de salientar que os poemas não foram reproduzidos integralmente porque o texto ficaria muito longo. Ademais, os poemas podem ser encontrados na internet ou mesmo nos livros que estão disponíveis para compra. Ressalto que o intuito do texto é um convite a obra deste autor e trazer um pouco de conhecimento sobre as pessoas que escrevem sobre as favelas e realidades que não estão representadas de forma que se mostre que a periferia também produz conhecimento e cultura para o país. A visão de Vaz parece contestar esse estado de condenação dessas realidades e dessas pessoas ressaltando o que há de melhor nas comunidades paulistanas da zona sul. Sua visão e seus projetos visam dar oportunidade e acreditar em pessoas que tem capacidade para mudar o mundo e escrever sua própria história através do seu lugar de fala e suas experiências pessoais.

Os Livros

Referências Bibliográficas

*Este texto contém uma imagem do Sérgio Vaz que pertencem respectivamente ao Coletivo Multimidia Garapa e foi tirada no dia 27/05/2010 e pode ser consultada em nosso link. A imagem foi alterada para o texto, e ganhou coloração preto e banco. Reservamos todos os direitos dessa imagem ao Coletivo.

*Este texto contém duas imagens das capas de livros Flores de Alvenaria e Colecionador de imagens. Nenhuma das imagens foi alterada e pertencem a Global Editora. Reservamos todos os direitos da imagem à Editora.

VAZ, S. Colecionador de Pedras. São Paulo: Global Editora 2013, 2ª edição.

VAZ, S. Flores de Alvenaria. São Paulo: Global Editora 2017, 2ª reimpressão.

VAZ S. Flores de Alvenaria: Primavera Periférica. São Paulo: Global Editora 2017, 2ª reimpressão.

COOPERIFA. Cooperifa. Acesso em: 03 de novembro de 2019. Disponível em: <http://cooperifa.com.br/?page_id=9>.

FOLHA DE SÃO PAULO. Guia Folha: Bar do Zé Batidão. Acesso em: 03 de novembro de 2019. Disponível em: https://guia.folha.uol.com.br/bares/variados/bar-do-ze-batidao-chacara-santana.shtml>.

GLOBAL EDITORA. Sérgio Vaz. Acesso em: 03 de novembro de 2019. Disponível em: <https://globaleditora.com.br/autores/biografia/?id=1989>.

IMAGEM SÉRGIO VAZ.  Produção Cultural no Brasil; Coletivo Multimidia Garapa. Acesso em: 05 de novembro de 2019. Disponível em: < https://www.flickr.com/photos/prodculturalbr/4863760718/in/photostream/>.

IMAGEM FLORES DE ALVENARIA. Flores de Alvenaria. Acesso em: 05 de novembro de 2019. Disponível em: < https://globaleditora.com.br/catalogos/livro/?id=3837>.

IMAGEM COLECIONADOR DE PEDRAS. Colecionador de Pedras. Acesso em: 05 de novembro de 2019. Disponível em: < https://globaleditora.com.br/catalogos/livro/?id=2882>.

POLIFONIA PERIFÉRICA. Sérgio Vaz vence Prêmio Governador do Estado em três categorias. Acesso em: 03 de novembro de 2019. Disponível em: <http://www.polifoniaperiferica.com.br/2012/01/25/sergio-vaz-vence-premio-governador-do-estado-em-tres-categorias/>.