E quando não for carnaval?

Detalhe da Viradouro na Sapucaí. Imagem: Reprodução Internet.

O carnaval provocou várias indagações a partir dos enredos e desfiles das escolas de samba do Rio e de São Paulo, cidades onde elas são pujantes e se destacam no cenário nacional. Todos saudaram os temas politizados, alegorias, carros e alas ou grupos representando as dores do cotidiano da gente. Observando o mosaico diante dos meus olhos, imaginei que este povo anônimo sorrindo na cuíca, no surdo e no tamborim bem podia estar ali defendendo seus direitos em qualquer outro dia que não fosse carnaval.
O grande Wilson das Neves compôs o samba “O dia que o morro descer e não for carnaval” que, de certa forma, é um resumo do que acabo de escrever. Leia a letra e procure a gravação no Youtube:

O dia em que o morro descer e não for carnaval
ninguém vai ficar pra assistir o desfile final
na entrada rajada de fogos pra quem nunca viu
vai ser de escopeta, metralha, granada e fuzil
(é a guerra civil)
No dia em que o morro descer e não for carnaval
não vai nem dar tempo de ter o ensaio geral
e cada uma ala da escola será uma quadrilha
a evolução já vai ser de guerrilha
e a alegoria um tremendo arsenal
o tema do enredo vai ser a cidade partida
no dia em que o couro comer na avenida
se o morro descer e não for carnaval
O povo virá de cortiço, alagado e favela
mostrando a miséria sobre a passarela
sem a fantasia que sai no jornal
vai ser uma única escola, uma só bateria
quem vai ser jurado? Ninguém gostaria
que desfile assim não vai ter nada igual
Não tem órgão oficial, nem governo, nem Liga
nem autoridade que compre essa briga
ninguém sabe a força desse pessoal
melhor é o Poder devolver à esse povo a alegria
senão todo mundo vai sambar no dia
em que o morro descer e não for carnaval.

Beleza, né? Mas o morro não desce fora da folia. A favela vive acuada, medrosa, assustada, e com razão. Muita gente tem medo de tudo, assombração, pastor, polícia, bandido, grito, latido de cachorro na madrugada. São centenas, milhares, milhões de brasileiros com pavor de conversa mais ou menos séria, nem precisa ser sobre política. Se você pergunta se o dinheiro está mais curto do que no tempo do Lula, a pessoa olha desconfiada e muda o rumo da prosa. Se você comenta um assalto, ela conta um latrocínio. É uma desgraça depois de outra e de outra mais… como começou isso? Onde perdemos a noção sobre nós mesmos como amigos, vizinhos, comunidade, bairro, enfim?

Em 1808, quando a família real portuguesa estava por desembarcar no Rio de Janeiro fugindo o expansionismo de Napoleão, zelosos portugueses que por cá estavam escolheram quais construções seriam adequadas a abrigar os 40 mil patrícios da comitiva de Dom João VI. Visitavam as casas e, aprovando, pichavam na porta PR, ou Príncipe Regente, e o morador e sua família eram sumariamente despejados.

O povo traduzia as iniciais por “Ponha-se na Rua” e “Prédio Roubado”, mas ninguém enfrentou a autoridade. A família real portuguesa foi morar em São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista, propriedade de um abastado traficante de escravos, que a cedeu de bom grado, segundo consta. Deve ter sido o primeiro esbulho da nossa história, então de pouco mais de 200 anos. É bem antigo o pé da polícia na nossa porta, só que hoje não é em casas luxuosas e ricos apartamentos, mas nas favelas e periferias.

Atualmente a propriedade particular é protegida, desde que pertença à parcela da sociedade sob o guarda-chuva da lei na ordem vigentes, donos de seus imóveis e de seus narizes, aqueles a quem a polícia cumprimenta com um certo temor. Quando chegará o dia em que todas as pessoas serão cidadãs – quando o morro descer e não for carnaval?
A questão é complexa, abrangente, profunda e em grande medida passa pela educação e pela cultura popular.

Educação porque o Brasil tem no geral um ensino público de má qualidade e deformado, professores, funcionários, diretores, reitores, todo um arcabouço criado não para educar, mas para formar bois de presépio, carneiros e lobos no mesmo espaço lutando pela sobrevivência.

Não é à toa que brasileiro estuda o mínimo essencial para se qualificar em alguma coisa que lhe garanta o sustento e quando agarra seu diploma larga os livros e cai na vida selvagem, galgando degraus sobre competidores ou quem atrapalha seu caminho.
Cultura porque nossa riqueza humana, o cabedal de conhecimento acumulado em séculos de escravidão e de exploração humana, é relegado ao lixo pelo estado que deveria zelar por este patrimônio único do povo. Somos largados às feras, ao mercado, à dominação cultural norte-americana, suas roupas, suas manifestações e sobretudo sua língua. O Brasil não tem a menor vergonha em deixar o idioma estrangeiro se impor ao português e é cada dia mais ampla a camada da população que desdenha dos semelhantes na admiração basbaque ao que vem de cima.

De atraso em atraso e de desvio em desvio, perdemos o contato com a nossa alma, cuja expressão mais espontânea talvez seja o carnaval, no que representa de apropriação do espaço público.

“A praça é do povo como o céu é do condor”, disse Castro Alves, mas raras vezes isto foi verdade. O antropólogo Roberto Da Matta debruçou-se sobre a questão e concluiu que jamais nos apossamos das praças e das ruas, não fomos donos e senhores sequer de nossas posses, como vimos em 1808, em 1990 quando confiscaram a poupança dos poupadores, ou agora mesmo ao dilapidarem empresas públicas essenciais ao desenvolvimento para vender ao estrangeiro a preço vil.

Assim, o povo brasileiro considera o espaço público não propriedade sua, mas do governo. Acha natural a polícia em cada esquina, as armas pesadas ostensivamente à mostra. Joga a guimba pela janela, o lixo nas encostas, suja as ruas, emporcalha as praias, as lagoas, os rios e os mares. Não temos consciência de cidadania e cada dia nos importamos menos com o que acontece na vizinhança, na rua, na vida do próximo. Nada nos afeta, nos diz respeito, sequer o que nos pode destruir a vida.

Muita gente que cumprimentamos, pessoas com quem trabalhamos e jogamos bola nos fins de semana, vê com total naturalidade as execuções nas favelas, a extrema violência do sistema penitenciário, estupros de mulheres depois da festa, todo o festival de horrores mantido pelo estado. Esta realidade pobre e triste não será mudada senão através da revolução ideológica e política. Até lá, viveremos a miragem poética de Wilson das Neves catando O dia em que o morro descer e não for carnaval…