Acredite se quiser

A manifestação prevista para o próximo dia 15 seria mais uma de apoio ao presidente Jair Bolsonaro se não fosse por propor o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal. Isto não é um pormenor, é a clara demonstração de que Bolsonaro quer dar um golpe final na democracia brasileira, porque a supremacia do poder Executivo sobre o Legislativo e o Judiciário se traduz pura e simplesmente em nova ditadura.
Juristas, operadores do direito em geral, intelectuais e demais defensores da democracia vêm se manifestando nas redes sociais e mesmo na mídia atrelada ao interesses econômicos do governo contra a manifestação, mas de maneira pontual e discreta, enquanto do outro lado surgem a cada momento convocações pseudo-patrióticas, a mais grave delas do próprio presidente da república, em flagrante desrespeito à Constituição.
O vídeo de conclamação para o ato do dia 15 de março tem a seguinte locução: “Ele foi chamado a lutar por nós. Ele comprou a briga por nós. Ele desafiou os poderosos por nós. Ele quase morreu por nós. Ele está enfrentando a esquerda corrupta e sanguinária por nós. Ele sofre calúnias e mentiras por fazer o melhor para nós. Ele é a nossa única esperança de dias cada vez melhores. Ele precisa de nosso apoio nas ruas. Dia 15.3 vamos mostrar a força da família brasileira. Vamos mostrar que apoiamos Bolsonaro e rejeitamos os inimigos do Brasil. Somos sim capazes, e temos um presidente trabalhador, incansável, cristão, patriota, capaz, justo, incorruptível. Dia 15/03, todos nas ruas apoiando Bolsonaro”.
Está claro que o presidente é retratado como enviado dos céus para salvar o país. O texto diz que ele comprou a briga por nós, quando na realidade foi apenas mais um entre vários candidatos em 2018. Lembra o episódio da facada, em Juiz de Fora, até hoje suspeito, e afirma que ele é a única esperança de “dias cada vez melhores”, embora os índices de inflação, desemprego, desindustrialização, mortes e corrupção sejam alarmantes.
Bolsonaro é apresentado como o “messias”, de carona com seu nome do meio, e este pacote é comprado sem questionamento por seguidores nas igrejas pentecostais onde obteve ampla vantagem no segundo turno das eleições passadas graças precisamente ao falso messianismo. O que o país tem visto, desde sua posse, é uma sucessão de denúncias de irregularidades na atividade parlamentar dele e de seus filhos, como as “rachadinhas”, as ligações com as milícias em nível nacional e as seguidas ameaças à normalidade institucional.
O decano dos ministros do Supremo, Celso de Mello, advertiu há pouco que convocar manifestação contra poderes constituídos pode caracterizar crime de responsabilidade. Reação tímida, vinda de onde vem, mas tem peso. No governo, militares que cercam o presidente posaram com ele fazendo um gesto que pode ser interpretado como pedido de novo Ato Institucional nº 5, ou seja, o fechamento total do regime com mais perseguição, prisão, tortura e morte de cidadãos. Na foto estão todos de terno, mas é visível a farda de cada um.
Também civis do governo endossam a atitude do presidente e apressam-se em externar apoio, como a secretária de Cultura, Regina Duarte, espécie de Malu Mulher que virou Dona Benta no inverno da vida. Do outro lado da rua, ex-presidentes, de FHC a Dilma, protestam e o compositor Arnaldo Antunes anuncia que vai à justiça pelo uso de sua música Pulso no vídeo bolsonarista postado por Olavo de Carvalho.
Mas o general Luiz Eduardo Ramos, chefe da Secretaria Geral da Presidência e que priva da mais absoluta intimidade do poder, assegura na Folha de S. Paulo que “em nenhum momento o presidnte sequer pensa em atacar as instituições”. Acredite se quiser…

Assista ao vídeo de Arnaldo Antunes aqui: https://youtu.be/YDZWDsK912U