USP: habemus cotas

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Terça-feira, 04, a maior universidade do país, Universidade de São Paulo (USP), adotou a política de cotas em seu vestibular, a Fuvest. Serão reservadas vagas para alunos da rede pública de ensino e todos os autodeclarados pretos, pardos ou indígenas. Antes de ser aprovado, o assunto foi pauta de atos e greves de alunos em São Paulo.

Depois de intensos impasses, vetos e abaixo-assinados entre o Núcleo de Consciência Negra da USP e o Conselho de Graduação, a conquista das cotas raciais foi alcançada, ainda que escalonada pelos próximos quatro anos. Sempre a custo de muito empenho e luta, as ações afirmativas são um estanque provisório para as demandas sociais e para a composição étnico-racial ideal para o país. A universidade era a única estadual que não havia adotado por completo a medida – o conselho acadêmico, em sua grande maioria, conservador, certamente era responsável por isso. O pensamento deve ser de vitória e avanço contínuo.

Mas, como era de se esperar, as demandas não se encerram. Os estudantes precisam do auxílio-permanência para que a matrícula não seja trancada no primeiro semestre. As políticas públicas de permanência são gasolina, enquanto as cotas são motor. Estudar e trabalhar ao mesmo tempo, quando não é difícil, torna-se inviável – isso quando sequer há emprego, dado o cenário desolador de oportunidades para os jovens. As xeroxes de livros, o transporte para quem vem da periferia, o lanche, o material de sala: nada cai do céu. Além dessas garantias, as faculdades brasileiras precisam incluir em seu calendário e atividades regulares intervenções práticas que estimulem o respeito e exaltação da diferença e punição exemplar para racistas e homofóbicos, de maneira que se evitem mortes como a de Diego Vieira Machado, assassinado dentro do campus da UFRJ no ano passado em um claro crime de ódio.

Mais que a conquista, o movimento negro ganha poder de decisão em diversas esferas e, agora, em uma universidade renomada como a USP, abre precedentes para lutar por cotas nos concursos de docentes e demais funcionários. 50% das vagas pode ser muito ou pouco, mas nunca invisível. Que o xeque-mate não termine e as caravanas de oportunidades, justiça e equidade sejam propagadas em todos os corredores e reitorias acadêmicas.