Urbanismo imaterial e enfrentamento da violência

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Créditos: Pedro Farina

A cidade arde de iniciativas inovadoras, cabeças pensantes, falantes, ativas de corpo inteiro, desejo intenso, saberes acumulados; redes compostas, prontas ou flexíveis, duelando um dia a dia difícil da produção de cultura, educação e arte (campos em que milito). Vive-se m cotidiano às vezes “despotencializador” (apenas a força humana atávica se mantém no percurso incessante), outras vezes, estimulante (união de forças que atingem resultados e animam).

É hora de o poder público perceber e valorizar esta rede múltipla de experimentos inovadores ou “apenas” efetivos que envolvem arte, cultura, educação, direitos, cidadania e esportes. Essa é uma gama grande de fazedores que podem marcar a diferença em uma política pública inovadora de enfrentamento à violência. São seis elementos fundamentais para esta missão.

Comparados aos bilhões que são investidos em obras de concreto que só fazem enriquecer as empreiteiras, as ditas obras imateriais recebem apenas migalhas. Isso precisa mudar. Temos um histórico imenso de uma engenharia autoritária, centralista, monumental, arrasadora do tecido orgânico da cidade e atropeladora de direitos. De Pereira Paes a Eduardo Passos, separados por 104 anos, o poder público municipal se afirma através das grandes obras materiais. Precisamos ir além desta metodologia antiga, pois nossos problemas são incandescentes.

Para a inovação urgente que precisamos, é necessário um diálogo incessante, curioso e intenso, propiciador de parcerias, de envolvimentos em ações coletivas que transcendam nossos impulsos produtivos de autossignificação em nossos guetos de militâncias.

Tudo que precisamos: enfrentar a violência de forma transversa, propiciando novos espaços de relação com a cidade, com a livre expressão artística e de pensamento, espaços que acolham o jovem desta cidade em guerra dixavada, que representem novas vivências e horizontes, que apostem em seu potencial (tão rico o potencial da sagaz juventude popular carioca!). Os parques, as ruas, as escolas… A cidade precisa pulsar arte, cultura e diversidade para que a onda violenta reflua aos poucos. Eu não acredito em soluções que envolvam unicamente os aparatos de segurança – inclusive, porque este próprio aparato é parte do problema e sobre ele também devem incidir ações da mesma ordem.

Em meio ao caos, vivemos também um momento excitante. Rolou um restart do engajamento político, da mobilização, da desobediência civil, dos protestos. Vimos alguns resultados do novo grooveTudo tem a ver com redescobertas na relação arte-cidade. Insights de novos impactos, nova visão, intuição e tarefas, foco no entorno. Tem a ver com redescobertas na Pólis. A sociedade civil precisa gritar: é tudo nosso!

Precisamos, juntos, repensar o nosso entorno. Empoderamento não é imperial, não vem de cima para baixo; é democrático, urdido na base. É importante que seja difícil para impor limites ao ego. Eis a metodologia da tarefa, da ação, do impacto na cidade: articular e produzir. Precisamos intuir e investigar o que é arte agora, no miolo desta metrópole tecnomedieval, precária, violenta, charmosa e bela, com um arrebatamento incompatível com as dores que sofre.

Cada um de nós atua em um campo, mas não deixamos de ser múltiplos e irrotuláveis. Algo nos une: o compartilhamento do território. A cidade é o amálgama que nos cerca e constitui, com o qual interagimos vivamente. Temos que cada vez mais acreditar nas potências do encontro! A biblioteca dos seres deve ser tão motivante quanto a impressa. Cada ser é um saber, uma narrativa. Leiamo-nos mais uns aos outros.

Como esforço político, investimos na potência das práticas democráticas. O exercício de consolidação deste ato é um exercício de escuta e compartilhamento. A partir daí, é potencializar processos de transformação que ativem nossa esperança e o desejo-motor que gere ações ininterruptas, multiarticuladas, espalhadas por  toda a cidade: um novo pacto, um novo modo de operação dos governos, uma participação mais potente dos cidadãos na vida da pólis.

Podemos parir tudo isso se investirmos nas arenas, nas articulações autônomas e novas. Existe um campo de trabalho imenso aberto à nossa frente. Uma certeza temos: há material humano para a transformação!

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Dramaturgo, diretor teatral, ator, educador e ativista cultural. Escreveu e dirigiu o espetáculo "Mundo Grampeado - Uma ópera tecno-tosca" entre outras produções da Cia Monte de Gente, fundada em 2006. Participa ativamente do movimento Reage Artista e foi um dos articuladores do Ocupa Lapa. Coordena, desde 2015, o projeto Ocupa Escola, que atua em 25 escolas municipais do Rio de Janeiro levantando a bandeira "Toda escola é um centro cultural". É também idealizador do Facedrama, ferramenta de dramaturgia coletiva online. É autor das peças "Entregue seu coração no Recuo da Bateria", "Um de Nós - A Saga quase olímpica de um judoca iraniano" e do musical infantil "Aninha contra o Feiticeiro de Lixoxxx"