Um Rio triste

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Créditos: Reprodução Internet

O povo do Rio de Janeiro tem passado por maus bocados com os últimos prefeitos e governadores que assumiram seus postos por aqui. Mas o que estamos vivenciando com os atuais governos municipal e estadual é algo que foge completamente a todos os parâmetros aceitáveis de tolerância.

Há pouco mais de 10 anos, éramos a vanguarda política, cultural e econômica do país. Havia Poços de petróleo (supostamente) infindáveis na camada de Pré-Sal haviam acabado de ser descobertos. O Brasil finalmente sediaria outra Copa do Mundo (até então, um sonho de 9 entre 10 brasileiros, inclusive deste que aqui vos escreve), o Rio de Janeiro foi o palco da final do torneio. No ano anterior, a cidade havia recebido a Jornada Mundial da Juventude e, nos anos seguintes, os tão esperados Jogos Olímpicos.

Mas o resultado foi uma escatologia total. Os investimentos não paravam de aparecer, e as chamadas “revitalizações” iniciaram um processo inexorável. Os primeiros a sentirem os sinais dessas mudanças foram os mais pobres. O governo estadual da época, cujo chefe se encontra agora preso em Bangu-8, criou as infames UPPs com a promessa de que se iniciava uma nova política de segurança, na qual o Estado se faria presente através de ações socioculturais. Além disso, para atrair capital estrangeiro, o governo estadual deu isenção de impostos para várias fábricas e multinacionais – isenções milionárias, cabe reforçar.

A cidade do Rio de Janeiro não ficou atrás no quesito “revitalização”, e para realizar os Jogos à sua maneira, iniciou uma campanha de remoções jamais ocorrida antes na história da cidade. 60.000 pessoas foram removidas de suas casas. A maioria desses moradores viviam em favelas ou bairros da periferia. Acabaram retirados de suas casas com a justificativa de que a cidade ganharia um legado positivo para sempre.

Menos de um ano após os Jogos, tanto o Estado como o município do Rio de Janeiro (e a região metropolitana) se encontram num colapso financeiro e moral inimagináveis. Servidores estaduais e de outras prefeituras estão há meses sem receber seus salários. Muitos ainda não receberam sequer o 13º de 2016. Para os incautos, a Polícia Civil está em greve desde janeiro, e uma greve de policiais de militares não seria algo tão impossível de acontecer – ainda que seja ilegal. E quanto a educação e cultura? O fechamento das Bibliotecas Parque e o abandono da Uerj nos deixa um alerta de que não podemos deixar tudo isso passar batido.

Com a chegada da nova gestão à frente da Prefeitura do Rio, muitos pensaram que a postura e atuação dos recém-eleitos mandatários da cidade seria diferente da anterior. Já está claro que nos enganamos redondamente. O novo prefeito, além de cortar verbas de projetos culturais, educativos e sociais, ainda se mostra pouco cordial com as tradições da cidade – conforme o ocorrido no Carnaval, quando ele se ausentou da tradicional cerimônia de entrega da chave da cidade ao Rei Momo, enviando em seu lugar sua secretária de cultura. Esta também precisa por os pés no chão e calçar as sandálias da humildade. Não é de bom grado, logo no início dos trabalhos, bater de frente com a classe artística – logo ela, que, enquanto conselheira municipal de cultura, conhece bem os problemas que enfrentamos. A recusa em honrar o Edital da Cultura da gestão anterior tem se mostrado cada vez mais uma atitude insensata.

Voltando ao prefeito, nosso alcaide tem se empenhado mais em contratar falecidos e empossar seu filho como secretário do que outra coisa. Sem papas na língua, já disse por aí que “não sabe sambar, mas sabe trabalhar” e que “Cultura é troca. O artista, o escultor e o músico trocam sua arte por um sorriso, um sentimento, um aplauso”. No último fim de semana, ele se superou. Depois de pedir diretamente ao dono do Jornal O Dia a demissão do jornalista que redigiu uma reportagem sobre o péssimo atendimento nos postos de saúde do município, está se mobilizando para construir um muro no Palácio da Cidade, residência oficial do prefeito, que fica do lado do Morro Santa Marta. Tudo isso porque a primeira-dama tem medo da casa ser invadida. Invadida por quem? Favelados, é claro!

Será que o povo do Rio vai aguentar quatro anos?

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Ativista e produtor cultural, trabalha na área musical desde 1990. Realiza com coletivos várias ocupações político culturais pela cidade, como Ocupa Lapa, O Passeio é Público , Ocupa Marina da Glória, e Ocupa MinC RJ.