Um País contra um mosquito

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praguinha
Divulgação Ministério da Saúde

Com o surgimento de novas doenças transmitidas pelo Aedes Aegypt, o governo federal declarou guerra ao mosquito ao lançar o Plano Nacional de Enfrentamento ao Aedes e à Microcefalia, além de montar a Sala Nacional de Coordenação e Controle, que monitoram e notificam junto aos estados os casos de zika, chikungunya e dengue. Dentre as ações do primeiro plano adotadas estão: inspeção de todos os imóveis públicos e privados em centros urbanos, visitas bimestrais de prevenção nas residências e a campanha de conscientização da população.  A Sala Nacional de Coordenação e Controle funciona como o grande centro de decisões e diretrizes a serem adotadas no combate ao Aedes, gerenciando e monitorando as ações em todo o país, junto às salas estaduais.

Para isso, foram mobilizados 220 mil militares, o Ministério da Saúde mantêm contato constante com a OMS (Organização Mundial da Saúde) e a OPAS (Organização Pan-Americana da Saúde) a fim de trocarem informações, além claro, de serem realizadas reuniões periódicas com as secretarias de saúde nos estados e municípios. Também houve a formação de um grupo de especialistas para estudar os casos de microcefalia, e técnicos foram enviados aos estados para acompanhar a situação em cada região.

Toda essa força-tarefa é justificada pelos últimos dados do boletim epidemiológico divulgado, no fim do mês passado, pelo Ministério da Saúde. Os números assustam. Só de casos prováveis de febre pelo zika vírus no país foram 91.387 dos quais  31.616 foram confirmados; de dengue foram 802.429, sendo só na região sudeste, 463.807 de casos suspeitos; e de febre chykungunia foram 38.332 dos quais 13.236 foram confirmados.

Mesmo com todas essas medidas adotadas pelo governo, afinal, porque ainda não erradicamos o mosquito transmissor? O biólogo Alessandro Giangola, coordenador das ações de controle do Aedes Aegypt  na COVISA (Coordenadoria de Vigilância em Saúde) da prefeitura de São Paulo, diz que desde a década de 80 o Brasil e a América Latina sofrem de epidemias de dengue, por isso, o problema não é de hoje. Ele explica que o Aedes é oriundo da África, continente de temperaturas altas, e ao ser importado para cá nos navios o mosquito se adaptou muito bem ao clima tropical, o que influenciou o seu ciclo reprodutivo encurtando-o de 7 à 10 dias, fato esse que dificulta o combate à proliferação. Outro ponto destacado pelo cientista é que para se reproduzir o mosquito precisa de um recipiente natural que acumule água e nos grandes centros urbanos não faltam ”recipientes artificiais”, ou seja , aqueles criados pelo homem e descartados todos os dias nas ruas como latinhas, pneus, etc. Esses fatores favorecem ao mosquito e à sua adaptação. Hoje o biólogo acredita que não é possível eliminar, mas sim diminuir a população do Aedes e que a grande dificuldade está na capacidade de adaptação da espécie.

Com números tão altos de casos suspeitos de zika e chykungunia, ao ser questionado se vivemos uma epidemia, Alessandro diz ser cedo afirmar isso e que esse número justifica-se porque essas doenças são novas, na verdade, o que há é uma ocorrência que estamos observando. Ele explica que essas doenças foram introduzidas há pouco tempo e que há essa impressão de epidemias ao se comparar com anos anteriores, quando não houve registros. Quanto à transmissão sexual do zika vírus o biólogo diz que é preocupante, porque além da circulação viral isso permite que ele se mantenha em circulação, mesmo no inverno quando a incidência de doenças causadas pelo Aedes é menor. Outro fato é que essa modalidade de transmissão é mais eficiente. “O que mais preocupa é que não conhecemos ainda esse vírus, nem o seu comportamento”, observa Alessandro. Já foram confirmados 10 casos por transmissão sexual de zika, sendo três casos na Argentina, Chile, Peru, respectivamente, nos Estados Unidos foram 6 confirmados e no Canadá um caso confirmado.

Na área de estudos há uma possibilidade que ainda está sendo testada e trata-se da bactéria wolbachia. O biólogo explica que essa bactéria encontrada em 7% das espécies, se comprovada a eficácia, é o melhor método por ser autossustentável e não deixar resíduos. Ainda em estudo a ideia é simples, verificou-se que mosquitos infectados com a bactéria mesmo apresentando resquícios do vírus zika foram incapazes de transmitir a doença aos outros mosquitos que não foram expostos à bactéria. Porém, os testes são iniciais.  Para Alessandro, futuramente, comprovada a sua eficiência esse é o método mais barato e ideal, já que a transmissão da bactéria wolbachia nos mosquitos é familiar, passando para o descendente.

Contudo,  o especialista alerta que é necessária a ação da população junto às autoridades, de modo que se incorpore ao dia a dia o hábito de vistoriar possíveis focos de reprodução durante todo o ano e não somente no verão quando há o pico de reprodução do Aedes. Segundo Alessandro este ano foram contratados 2.200 novos agentes da zoonozes que trabalham, integralmente, nas ações de combate e prevenção ao Aedes Aegypt e mais de 3 milhões de imóveis já foram vistoriados pelas autoridades em São Paulo.